Zettelkasten como seu jardim digital

Photo by Kaleidico on Unsplash

Se você não souber o que é Zettelkasten, eu explico isso AQUI e AQUI. Brevemente, um Zettelkasten é um método e um sistema de notas construído sobre três princípios:

  1. Pensar é escrever.
  2. O conjunto dos seus escritos deve ser sistematizado para funcionar como seu segundo cérebro.
  3. A sistematização deve se basear em conexões ontológicas, ou seja, conexões contextuais de nota para nota, como entes individuais, formando sequências, e não em taxonomias, com categorias pré-estabelecidas para a classificação das notas.

Um fato que vinha me intrigando desde que me tornei praticante do Zettelkasten é o quanto tenho encontrado prazer nessa prática. Também notei, pelas manifestações que vejo na internet, que isso não aconteceu só comigo. Muita gente afirma nunca ter tido tanto gosto em pesquisar e escrever até descobrir o Zettelkasten. Agora, acho que entendi o porquê.

Certa vez, comecei a jogar um jogo de computador chamado Civilization. Depois de algumas semanas, mesmo tendo pago caro no jogo, eu o deletei para nunca mais instalá-lo. O motivo é que eu passava muito tempo jogando, mais tempo do que eu acho razoável gastarmos em uma atividade que, afinal, é uma mera distração. Ainda que eu jogasse no meu tempo livre, eu acredito que existam atividades mais enriquecedoras para nos dedicarmos em nosso tempo livre.

Mas por que eu acabava jogando bem mais do que os 20 minutos que eu planejava jogar quando abria o jogo? Porque era viciante ver uma cidade crescer e florescer em virtude das minhas ações, mesmo que fosse de mentirinha. Na verdade, eram várias cidades, cada uma em seu próprio estágio de desenvolvimento rumo à civilização. Veja que jogos assim são muito atraentes mesmo para adultos, ou até especialmente para adultos. É gostoso construir algo, ou, ao menos, ter a sensação de estar construindo. É gostoso cultivar algo, ou, ao menos, ter a sensação de estar cultivando. Então, eu parei de jogar, porque o jogo, afinal, me proporcionava só a sensação de estar construindo ou cultivando algo. Na prática, era só uma ilusão digital.

Seja como for, a sensação em si é muito boa. E ela explica também por que gostamos de atividades muito mais valiosas, por serem reais e autênticas, como a jardinagem. Você presencia uma semente germinar, sabendo que você a colocou na terra. A seguir, a planta cresce. Você rega, poda, aduba… Um belo dia, surge o primeiro botão. No outro, a flor desabrocha. Então, você se anima e vai acrescentando outras plantas ao seu jardim em composições. Qual planta fica melhor perto daquela outra?

Você planeja, executa e contempla a sua ideia como realidade, mas, o que é melhor ainda, é que a realidade acontece de um modo que ainda é rico o bastante para lhe surpreender, ou seja, para exceder o plano ideal. Ver esse florescimento e essa expansão como obra sua, ver-se como criadora é muito gratificante. É o tipo de coisa que torna o trabalho significativo e que faz com que esse trabalho seja fundamental para que encontremos propósito e sentido em nossas vidas. Pois um Zettelkasten propicia exatamente isso.

Não é por acaso que a expressão “jardim digital”, que, para ser honesta, não sei quem cunhou, já se tornou bem comum entre praticantes do Zettelkasten ou de alguma variação desse tipo de sistema. Em um Zettelkasten, as notas não são produtos de valor transitório, que você joga fora quando conclui um projeto. As notas vivem no sistema e, se o sistema é digital, elas podem ser sempre editadas para serem melhoradas. Elas são cultivadas para serem “sempre verdes”, para usar a famosa terminologia do Andy Matuschack. Aí já reside a gratificação de presenciar uma nota ficando cada vez mais lapidada, mais aperfeiçoada. Ademais, uma nota se conecta com outra e você percebe que a conexão formou um todo que é mais significativo do que a soma das partes em isolamento. Costumam dizer que as notas são como átomos, que vão formando moléculas e essas moléculas acabam compondo todo um organismo de ideias.

As metáforas que você encontrará pela internet são muito variadas. Mas todas transmitem o sentido de cultivo gradativo e expansão com alguma dose de espontaneidade. O autor do sistema é o cultivador, que intervém diariamente para que todas as partes se harmonizem. Também é ele quem precisa garantir o input do sistema, portanto, ele tem o direito de se sentir criador. Todavia, ao mesmo tempo, o sistema vai se tornando algo autônomo, algo que, no relato do sociólogo Niklas Luhmann, que escreveu um artigo chamado justamente “Comunicação com Zettelkästen, torna-se um verdadeiro interlocutor.

A melhor parte é que, por mais tempo que você queira passar cultivando seu Zettelkasten e conversando com ele, você ainda pode refletir e ver como esse tempo é bem aproveitado. Mas, para isso, é preciso que você entenda que seu Zettelkasten precisa dar frutos. Ele precisa vir a público.

Parece-me que isso seria uma matéria para um outro post, mas, particularmente, eu não acredito em publicações do Zettelkasten em si, como você pode fazer tanto pelo Obsidian quanto pelo Rom Research, que são os dois melhores softwares para o desenvolvimento de um sistema assim. Quando eu olho o que chamam de “gráfico” público de alguém — o do próprio Matuschak, por exemplo — a minha sensação é sempre a de estar em um labirinto. Além disso, conforme vou escolhendo em qual link clicar, eu nunca sei se já li tudo que eu queria ler, se não deixei algo importante para trás. Enfim, eu acredito que dois Zettelkästen não devam se comunicar diretamente entre si. Como ouvi outro dia em algum podcast, é preciso que haja alguma publicação em formato linear — seja um mero post em um blog ou um livro — para intermediar entre dois Zettelkästen.

Mesmo que você não concorde com isso, acho que podemos concordar quanto à necessidade da publicação, de algum produto a ser compartilhado com outras pessoas, seja ele qual for. Afinal, de que vale o conhecimento se você não o compartilha com ninguém? Que importa pensar direito e guardar essa capacidade só para você? Eu tenho pensado muito sobre isso, exatamente porque eu mesma não sou uma pessoa sociável. Quando adolescente, guardei em um caderninho de notas uma citação, atribuída a Platão, que dizia “estou menos só quando estou sozinho, mais ativo quando não estou fazendo nada”. Sou eu. Mesmo assim, eu percebo que meus estudos não fariam sentido se não gerassem qualquer produto para ser comunicado. Da mesma forma, eu vivo de consumir o produto gerado por outras pessoas. Quer dizer, eu não gosto de comunicações síncronas e/ou pessoais tanto quanto vocês gostam, mas isso não quer dizer que eu não seja comunicativa. Eu quero desfrutar do conhecimento dos outros e quero que os outros possam desfrutar do meu conhecimento. Acima de tudo, eu penso que esse seja um outro aspecto importante do que dá sentido a uma vida humana. Sem comunicarmos o bem que cultivamos, esse bem é estéril e todo aquele cultivo, no final das contas, foi tão ilusório e sem sentido quanto as construções dos jogos de videogame. Não deixe isso acontecer com seu precioso Zettelkasten.

Professora de filosofia