Virando YouTuber Depois de Velha

Ainda é cedo demais para que eu possa afirmar que o modelo remoto de aulas é melhor do que o presencial para o curso de filosofia no qual eu leciono. Trata-se de um curso de licenciatura noturno em uma cidade interiorana. Isso implica que grande parte do corpo discente já trabalhou durante 8 horas quando sai, de casa ou direto do trabalho, para a faculdade. Alguns alunos vêm de cidades vizinhas. Assim, compute aí mais de uma hora de deslocamento para o campus. Portanto, não são muitos dos nossos alunos que têm o privilégio de dormir mais de 6 horas por noite. Mesmo assim, ainda falta tempo para fazerem todas as leituras necessárias para o bom acompanhamento das aulas presenciais.

Na minha opinião, com ou sem componente remoto, a carga horária presencial em tempos normais é excessiva. Como a carga horária mandatória em sala de aula não deixa muito tempo livre para o aluno dedicar aos estudos fora da sala de aula, o formato das boas aulas, no mais das vezes, acaba sendo a tradicional exposição do professor, quer dizer, a boa e velha lecture. Afinal, se você cobrar, por exemplo, seminários dos alunos, eles deixarão a desejar, já que teriam que ser preparados entre meia-noite e 6h da manhã. É por isso que muitas das aulas mais sérias acabam consistindo em mais de 3 horas de palestra por noite para um aluno que ouve capengando de sono. Eu não acredito que muito aprendizado decorra desse modelo. Suspeito, inclusive, que a ciência cognitiva possa amparar essa minha crença.

O modelo remoto, que estou começando a testar agora, tem a vantagem de enxugar as lectures, reduzindo-as ao que é realmente essencial e liberando tempo do aluno para leituras. Em um curso remoto, durante a maior parte do tempo, o aluno tem que passar a se ver como protagonista de sua formação, que é o que ele tem mesmo que ser se quiser ter uma boa formação, estude ele onde estudar. Neste modelo, o aluno, além de economizar em tempo de deslocamento, tem a flexibilidade de moldar sua rotina de estudos de acordo com seus horários de trabalho e seus afazeres domésticos, uma vez livre da rigidez das atividades 100% síncronas. Ele pode assistir 15 minutos de uma aula em um intervalo do trabalho, mais 15 no horário de almoço e assim por diante. Se ele não entendeu de primeira, ele pode voltar a explicação quantas vezes ele quiser.

Salas virtuais como as do Google Classroom, por sua vez, permitem que o estudante veja o curso organizado como um todo no momento em que ele puder acessar esse ambiente. Ele não tem que correr atrás do professor no corredor para pedir a repetição de uma instrução para uma atividade que ele perdeu, porque o ônibus atrasou. Todas as informações e instruções ficam disponíveis o tempo todo na sala virtual.

Agora, se o aluno que chega atrasado ou não aguenta ficar até o final de uma aula presencial perde instruções para atividades, imagine o quanto ele perde em explicação do conteúdo. Imagine como a construção do conteúdo da disciplina fica fragmentado na mente dele. É por essas e outras que eu vejo com simpatia modelos que diminuem a exigência de atividades síncronas e permitem o registro permanente do acúmulo progressivo do conteúdo. Uma aula que não é gravada, por melhor que ela seja, perdeu-se ao ser concluída. Quem viu, viu; quem não viu, não verá mais. Pior, quanto mais cansado estiver o estudante, quanto mais passivo ele for durante essa aula, menos importará se ele viu ou não viu.

Seja lá como for, quando a universidade é pública, existe um benefício adicional em aulas remotas. Eu defenderia que todas as aulas gravadas fossem disponibilizadas gratuitamente para o público em geral: o contribuinte que paga o salário do professor que está ali lecionando. Eu mesma já aprendi muito por meio de aulas gravadas. No meu caso, eu ensino aos meus alunos certos conteúdos que aprendi assistindo aulas presenciais gravadas em grandes universidades internacionais. No Brasil, não temos equipamentos para podermos fazer isso em larga escala. Gravar, editar e publicar uma aula presencial, com alguma qualidade, não é algo tão simples. Mas se a aula já tiver que ser gravada para o aluno mesmo… Por que não abri-la para todos?

Eu confesso que tenho essa visão da universidade como uma instituição de produção e disseminação do conhecimento. Grande parte da sociedade nos vê como escola profissionalizante. Mas não é nisso que reside nossa importância histórica. Não é mesmo.

Muito bem, no fim das contas, tudo isso que falei acima é só um prelúdio para eu anunciar uma decisão. (Falando assim, até parece que essa decisão importa alguma coisa. Bem, não importa para vocês. Mas importa muito para mim, ok?) Mesmo que minha universidade — por razões políticas, por razões corporativistas ou por boas razões — escolha voltar ao modelo presencial ao fim da pandemia, como se nada tivesse acontecido (mesmo que ela possa fazer isso), eu vou começar um canal no YouTube disponibilizando videoaulas gratuitamente.

Recentemente, eu abandonei os textos de divulgação, e creio que tomei a melhor decisão, porque meus textos eram a defesa de certos posicionamentos políticos, muitas vezes, posicionamentos tomados diante das discussões presentes na ordem do dia. Em suma, eram colunas de opinião, talvez, filosoficamente informadas. Já temos muito disso. Eu já disse em outro post que, no fim das contas, isso é só ruído, e eu não quero mais usar minha voz para aumentar o volume desse ruído. Deixemos o jornalismo para os jornalistas.

O que eu quero fazer doravante em termos de divulgação é diferente do que eu já fiz. Eu quero simplesmente gravar aulas em que procurarei explicar conteúdos da filosofia acadêmica de forma acessível para pessoas que não sejam graduadas em filosofia. No fim, eu quero fazer o que eu já faço em sala de aula dentro da universidade, mas quero fazer de tal maneira que isso seja acessível também para um jovem do interior que não tenha como se manter em uma cidade grande para frequentar um campus diariamente, ou simplesmente acessível para um trabalhador que saiba que a rotina universitária usual não cabe em sua agenda. Não é que eu acredite ter grande coisa a oferecer. É que eu acredito que eu preciso oferecer o que eu tiver.

Muita gente fala com desprezo do YouTube e dos youtubers, como se lá só existissem vídeos de gatos e de jovens exuberantes exibindo suas rotinas na academia. Mas a verdade é que eu aprendo de tudo no YouTube, de filosofia oriental a como fazer vídeos para o próprio YouTube. O único problema é que eu não tenho muito tempo para me dedicar a aprender mais e nem os equipamentos que deixam os vídeos com um aspecto mais “profissional”. Então, eu tenho consciência de que serão vídeos amadores com aspecto amador. Se, algum dia, algum deles for assistido por uma pessoa que não teve oportunidade de frequentar uma universidade e essa pessoa aprender uma coisinha que seja de valor, então, para mim, já terá valido grandemente a pena.

Professora de filosofia