Uma nota sobre virtudes

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Hoje, eu vi um tweet atribuindo a Nassim Taleb a seguinte citação: “People overvalue their knowledge and underestimate the probability of their being wrong.” Em livre tradução: “As pessoas superestimam seu conhecimento e subestimam a probabilidade delas estarem erradas”. Vamos começar consertando isso. O correto seria dizer: “Nós superestimamos nosso conhecimento e subestimamos a probabilidade de estarmos errados”. Pronto, bem melhor assim! Nunca devemos nos esquecer que nós somos essas pessoas.

Como alguém que tem interesse por ética da virtude, por epistemologia da virtude e até pela literatura lixo sobre auto-aperfeiçoamento que inunda a internet hoje em dia, o que eu mais noto é um fato constantemente reconhecido nos melhores textos sobre vícios e virtudes. Os vícios sempre estão nos outros; as virtudes, em nós. Na verdade, eu tendo até a pensar que nos tornamos piores estudando esse tipo de coisa, exatamente porque nos tornamos mais arrogantes e dogmáticos, identificando todas as falhas e defeitos sobre as quais estudamos por toda parte, menos em nós mesmos.

Eu mesma, ao notar esse problema, claro, o notei primeiro nos outros. Só com muita dificuldade consegui percebê-lo em mim. E o que é pior. Sinto que essa percepção de que sou vítima das mesmas falhas sistemáticas que acometem o juízo e os atos alheios, incluindo aí a tendência de pensar que só os outros são falhos, é muito superficial, artificial e passageira em mim. Quer dizer, mesmo que eu consiga vislumbrar o problema, eu não consigo manter em mente, sistematicamente, que eu sou os outros: os vícios deles são os meus também.

A minha preocupação com esse vício que me acomete é agravada, porque eu acabo chegando à conclusão que o fundamento de toda virtude genuína tem que ser essa capacidade de voltar os olhos da crítica para si mesmo e parar de apontar o dedo para os outros. Mas eu confesso que não sei como evoluir nessa direção. Não seria isso uma santidade de que nós, humanos, não seríamos capazes?

Eu vou estudar mais sobre o assunto. Já li algumas coisas em autores que acreditam que a solução para esse problema precisaria ser social ou institucional. Quer dizer, para esses autores, não dá para o indivíduo achar que ele tem uma força interna que lhe permitiria, sozinho, ultrapassar limitações como a tendenciosidade. Precisaríamos desenhar instituições que neutralizem ou, ao menos, minimizem esses efeitos. Mas, como minha preocupação é mais ética do que política, é inevitável que eu me pergunte: e o que eu posso fazer para melhorar? A minha impotência diante dessa questão me deixa um tanto frustrada.

Professora de filosofia

Professora de filosofia