Uma Crítica Estóica ao Capitalismo

Não é porque o capitalismo é a maneira mais eficiente de alocação de bens escassos que devemos abraçá-lo entusiasticamente como a forma de vida ideal para o florescimento da natureza humana, aquilo que os antigos chamaram de “eudaimonia” e que perde seu sentido ao ser traduzido por “felicidade” no sentido moderno da palavra.

Habitualmente, associamos a crítica ao capitalismo com a denúncia da desigualdade de renda e patrimônio, de tal maneira que os que negam que a igualdade seja a situação justa by default não teriam de que se queixar. Também costumamos pensar que criticar o capitalismo significa propor a substituição do mercado por algum outro mecanismo de distribuição de bens, o que, em sociedades complexas, significaria fome generalizada. Mas será que, para além da crítica social e econômica, não poderíamos tirar proveito de uma crítica ao capitalismo que se paute naquilo que ele faz com as vidas dos incluídos e bem-sucedidos, a título de uma reflexão ética individual sobre a boa vida?

O capitalismo dá certo economicamente, porque é o melhor sistema de satisfação de preferências privadas. Significa que sua ética intrínseca nos impele a nos ocuparmos o tempo todo da satisfação do outro. É essa capacidade de um gerar valor para o outro, e não o mérito, que move o capitalismo. Digo “e não o mérito”, porque é possível corresponder a valores subjetivos alheios sem envidar muitos esforços ou demonstrar muito engenho. Alguém poderia lhe pagar para apreciar sua beleza natural, por exemplo.

Assim, o capitalismo é um sistema decentralizado de distribuição de bens, em que cada um de nós paga por aquilo que demanda. Cada um é um distribuidor. Logo, para termos sucesso nesse sistema, temos que conquistar quem queira consumir o que tivermos a oferecer. Curiosamente para um sistema tido por egoísta, isso é viver para o outro, não para você.

Porém, naturalmente, há o outro lado da moeda. Você também é um consumidor, como todo mundo. Significa que quanto mais vontades e necessidades você tiver, mais vai precisar dos outros; mais fará a economia girar, como gostam de dizer. Acontece que, quanto mais a sua felicidade depende dos outros, menos você está no controle de sua vida. Isso é um truísmo, claro.

A vida do consumidor está nas mãos da fortuna. Ele não sabe por quanto tempo terá os meios necessários para pagar por todas a satisfação que ele demanda dos outros, afinal, por quanto tempo ele mesmo será demandado? Ele pode aparentar muita fé no mérito próprio – ele dirige o carrão que merece, porque merece – mas, no seu íntimo, ele sabe que não é bem assim, e ele dorme à base de Rivotril, porque ele não sabe o dia de amanhã.

O sábio estóico, nesse sentido, perturba mais o sistema capitalista do que um marxista, porque ele procura ajustar o seu querer àquilo que está sob seu completo controle, ou seja, ele corta ao máximo a sua dependência do consumo de bens e serviços. Além disso, ele sabe a diferença entre trabalhar no cultivo de verdadeiros valores, coisa que sequer existe para o genuíno entusiasta do capitalismo, e se ocupar de satisfazer preferências pessoais. Por isso, ele se ocupará o mínimo possível das demandas hedonistas de seus cocidadãos. Como resultado, ele será senhor do próprio tempo. E ele terá grandes chances de êxito, justamente por precisar consumir cada vez menos. Em suma, ele não fará a economia girar.

Ora, o que aconteceria com a economia se todos nos tornássemos sábios estóicos? Eu receio que não precisemos nos ocupar com essa questão por não corrermos o risco. Mas se você que está lendo isso olhar para sua vida, se julgar alguém de sucesso e, ainda assim, não se considerar feliz, talvez, você queira saber que o que te faz falta é mais do sentido antigo de felicidade e menos do sentido moderno.

Professora de filosofia

Professora de filosofia