Três Máximas para uma Vida Produtiva

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Photo by Nicolai Berntsen on Unsplash

Produtividade é uma boa coisa, porque, se entendemos bem do que estamos falando, ser produtiva significa ser eficiente na criação de algo de valor, ou seja, significa gerar produtos bons, maximizando o uso de recursos como tempo e energia no processo. Como isso poderia ser ruim? Daí que eu goste do tema e costume ler sobre ele. Ter uma vida produtiva me parece meio caminho andado para termos uma boa vida.

O problema é que, aqui no Medium mesmo, sempre nos deparamos com mais do mesmo nesse nicho. Alguém tem uma boa ideia, por exemplo, alguém escreve que hábitos e sistemas são mais importantes para a produtividade do que objetivos, e então 978 mil pessoas escrevem artigos reproduzindo essa mesma ideia. Isso para não falar dos artigos que são muito mais longos do que deveriam, o que, por si só, já é contraproducente. A pessoa tem que contar toda a sua história de vida e descrever toda a sua rotina para enfim nos sugerir, por exemplo, uma técnica simples e já bem conhecida de time blocking. Francamente!

Bom, já que estou quase incorrendo no mesmo erro, vamos direto ao ponto. Este não é um post para falarmos de técnicas e métodos de produtividade, como os blocos de horas no calendário ou a subdivisão de projetos em ações concretas imediatamente exequíveis. É um post para falarmos de alguns princípios mais gerais, que julgo que devam ser adotados a fim de termos uma vida mais produtiva. Talvez, seja o milésimo artigo que você já leu com o mesmo tipo de recomendação que farei, mas a mim, particularmente, parece que temos dado pouca ênfase nesses pontos, e muita ênfase em ferramentas e hábitos particulares.

A primeira coisa é entendermos justamente a natureza da produtividade e, com isso, entendermos que ela não consiste em ocupação. Uma verdadeira praga cultural da nossa época é essa mania que as pessoas pegaram de repetirem o tempo todo para todos que estão correndo, estão ocupadas, estão trabalhando demais… O problema que vejo com isso é que, como é bem fácil de ser notado, essas pessoas não estão se queixando. A queixa é só uma aparência. Na verdade, elas estão se gabando de serem muito ocupadas. Hoje em dia, uma conversa, pode observar, vira facilmente uma verdadeira disputa para ver quem está mais ocupado. Ora, isso significa justamente que as pessoas vêem a ocupação por si só como algo meritório; uma evidência de produtividade e importância. Mas não é! E enquanto você não entender que não é, sua vida não será realmente produtiva.

Para além de qualquer questão de sustentabilidade, acima de tudo, uma vida corrida demais é uma vida despida de qualquer criatividade ou insight. Estudo sobre estudo tem comprovado a importância das atividades lúdicas, do ócio para a criatividade. Este é justamente um dos pontos com os quais suponho que você já tenha se deparado mil vezes neste tipo de artigo. Se não é o caso, então, ao menos, você já percebeu em sua experiência direta que suas melhores ideias costumam aparecer quando você está tomando banho, ou que a solução de um problema lhe ocorre quando você finalmente conseguiu parar de pensar nele.

Neurocientistas explicam que o cérebro não gasta energia com a criação de novas ideias quando ele precisa distribuir esse recurso em um organismo estressado. Psicólogos constatam que atividades como hobbies e caminhadas, de preferência, em contato com a natureza, enriquecem nossa imaginação e aumentam nossa capacidade de concentração. Todos concordam sobre a importância da quantidade e da qualidade do nosso sono. Logo, uma vida corrida é tudo que precisamos evitar se quisermos que nossa mente seja realmente capaz de criar algo de valor. E aqui, você vai me desculpar, mas e-mails enviados e mensagens respondidas no WhatsApp não são produto que se apresente. Passar o dia em reuniões não significa estar realmente construindo algo que valha a pena. Significa apenas que você confunde ocupação com produtividade, movimento com criação. Nossa primeira máxima, portanto, é evitar essa confusão fatal.

Além de sofrer cronicamente de falta de criatividade, a pessoa sempre ocupada não tem tempo para sentar, refletir e estabelecer prioridades. Pensar, para essa pessoa, é perda de tempo. Como ela pode ficar parada? Se você perguntar para ela por que ela faz o que faz, quais objetivos ela persegue afinal, ela responde com uma dessas frases vagas que servem de missão para qualquer empresa, seja lá o ramo em que ela atue. Essa pessoa não sabe para onde está rumando. Ela só quer seguir o mais rápido possível, talvez, para não ter mesmo que pensar sobre sua direção, para não ter que reconhecer que se perdeu.

Essa pessoa sempre ocupada vive à mercê de influências externas para definir suas ações. Por um lado, ela apenas segue o status quo. Ela está juntando dinheiro para comprar um apartamento em um determinado bairro, porque é isso que as pessoas de sua classe social e faixa etária fazem. Por outro lado, as ações que essa pessoa realmente executa em um dia nem são parte de algum projeto que ela reconheceria como seu se você citasse para ela, como o projeto de compra daquele apartamento. Na verdade, ela só reage às demandas dos outros, que chegam a ela de 15 em 15 minutos. Ela até havia planejado algumas tarefas para o dia, mas aí… ela abriu o email e, quando se deu conta, já tinha acabado a manhã. Ela se tornou refém da agenda de terceiros. Todos são reféns da agenda de todos hoje em dia, na era da comunicação.

Daí que eu acredite que a segunda máxima que você deva adotar, depois de mudar sua programação mental sobre o valor da ocupação, é a disposição de dizer “não” para propostas e oportunidades, mesmo que sejam boas. Esse ponto também já foi citado em mil artigos. Mas ele precisa ser citado em 100 mil. Se você tem um plano para sua própria vida, se você vive intencionalmente, by default, sua resposta para propostas e convites de trabalho é “não”. Isso não significa que você não possa ou não deva colaborar. Significa que você colabora nos seus termos, quando a proposta vem ao encontro das suas prioridades, dos seus valores.

Contudo, você só consegue adotar esse novo mindset em que, como dizem, todo “sim” sem empolgação, sem absoluta certeza, se torna um “não” convicto, quando você entende que o tempo é um recurso escasso, assim como a sua energia, a sua capacidade de concentração. Você tem que entender, de uma vez por todas, que a vida é feita de escolhas, e que, quando escolhemos, deixamos, sim, passar algo bom. Você não pode ter tudo que é de valor, não pode desfrutar de todas as oportunidades que lhe parecem boas.

Claro que é bom ter hobbies, é bom se distrair, é bom ter interesses diversos. Eu falo aqui de compromissos. Falo dos projetos que realmente consomem aquelas poucas horas do seu dia em que você é capaz de trabalhar no ápice de sua capacidade produtiva. Pense como você vai investir essas horas, escolha como gastá-las. Ou, como diz Greg McKeown, os outros vão escolher por você; eles vão conduzir sua vida, e, sinto informar, você só tem uma.

Muitas vezes, as pessoas cometem o grave erro de dizerem “sim”, mesmo já tendo traçado suas prioridades em uma direção contrária, porque não sabem avaliar o tempo que gastarão com cada projeto. Eu sempre participo de entrevistas de candidatos ao mestrado e ao doutorado. Eu nunca vi um deles duvidar de que escreveria a dissertação ou a tese no prazo. É verdade que, mesmo que eles duvidassem, não falariam isso na entrevista. Mas o pior é que parece que eles acreditam mesmo que realizarão os projetos mais ambiciosos em 24 ou 48 meses, quando, muitas vezes, precisariam viver uma vida bem longa, com dedicação exclusiva, para conseguirem dar conta de tudo que colocaram em seus projetos. Essa tendência foi chamada de “falácia do planejamento”, pelo grande Daniel Kahneman. A pessoa sempre estima de forma otimista demais o tempo que será necessário para a realização de um projeto, a estimativa é otimista até mesmo para o melhor dos mundos possíveis. Para piorar, planejam como se imprevistos não fossem bem previsíveis.

Por mais que não houvesse qualquer razão para você ter antecipado um determinado obstáculo, você tem uma enxurrada de boas razões para acreditar que algum obstáculo surgirá. Algum parente seu ou você mesmo ficará doente. Ou, então, sua esposa ou você vai engravidar. Ou, então, você perderá seu emprego, ou receberá uma promoção, sem opção de recusa, que lhe fará trabalhar mais. Ou acontecerá uma conjunção de eventos menores que, somados, tirarão um pouquinho do seu tempo a cada mês, até que o cronograma daquela sua tese se torne a parte dela que você mais reescreveu, tendo que alocar cada vez menos tempo para desafios cada vez maiores. Resultado. Sua vida está corrida, você está estressada e nem consegue mais encontrar o que escrever. O tempo vai ficando mais curto ainda.

Por isso, a última máxima que sugiro que você adote vem também de um conceito do Greg McKeown. Ele diz que precisamos criar zonas de “buffer” em nossos projetos. Sabe quando você mantém distância do carro da frente, porque sabe que algum imprevisto pode obrigá-lo a frear bruscamente? Pois é, essa área entre você e o carro da frente é uma zona de “buffer”, no sentido de McKeown. É uma margem de segurança no planejamento.

Sempre que eu me comprometo em fazer um trabalho para alguém, como contribuir com um capítulo para um livro, por exemplo, eu negocio um prazo maior do que eu imagino precisar. Eu me orgulho de dizer que nunca entreguei um trabalho fora do prazo ou pedi mais prazo do que o originalmente combinado. E isso não é porque imprevistos não me aconteçam, é porque sou pessimista na estimativa do tempo que levo para fazer alguma coisa e deixo margens de segurança. Eu sou aquela pessoa que chega antes para não chegar depois, uma autêntica mineira nascida em pleno Paraná, você diria. Você não sabe o quanto isso alivia o stress da minha vida. Daí que eu esteja sugerindo que você adote essa prática também.

Quem é otimista demais na estimativa do tempo e não deixa margens de segurança para imprevistos acaba achando que pode mais do que de fato pode. Essa pessoa diz “sim” para tudo, se compromete demais, acha que não precisa deixar passar boas oportunidades. É ela quem acaba sendo personagem daquela conversa de que falamos lá em cima. Veja como ela se gaba de estar sempre ocupada. Veja como ela nunca pára. Agora, comece a prestar atenção no que ela produz de fato, para além de e-mails e reuniões.

Professora de filosofia

Professora de filosofia