Sobre o Estado de Direito e o “produtivismo” na academia

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Recentemente, eu escrevi um texto sobre o antagonismo entre o que se espera de um acadêmico nos dias de hoje e a natureza da filosofia. (Inclusive, o texto está aqui no meu perfil e se chama “A Maldição da Filosofia Acadêmica”, caso tenha interesse, mas não vou colocar o link para ele aqui, porque acho esses links no meio dos textos uma terrível distração para a leitura). Nesse texto, eu argumentei que a cobrança de publicações endossadas pelos pares desincentiva, para dizer o mínimo, a reflexão filosófica sobre questões mais abrangentes, sobre a big picture assim por dizer. Em outras palavras, eu quis dizer que a especialização extrema é inerente ao trabalho acadêmico atual, sendo que, embora essa cultura possa ser benéfica para ciências exatas e empíricas, o mesmo não vale para qualquer área e, certamente, não vale para a filosofia.

Contudo, naquele texto, eu não fiz qualquer sugestão de solução. Pelo contrário, acabei me declarando impotente, até porque, fora da academia, no chamado “mercado de ideias”, a situação não é melhor, ainda que por razões diferentes, talvez, até opostas. Afinal, enquanto, na academia, o filósofo profissional tem que restringir cada vez mais o seu objeto de investigação para conseguir passar pelo crivo dos pareceristas, fora da academia, o filósofo de YouTube é incentivado a ser apelativo, superficial e, por vezes, até agressivo, se ele realmente precisa viver de “likes”.

A verdade é que ambos os tipos — o filósofo acadêmico e o filósofo midiático — sofrem da imposição do excesso de publicações. Na academia, torna-se cada vez mais difícil fazer um levantamento bibliográfico decente, dado o número de textos publicados simplesmente para que metas de produtividade sejam batidas. Você acaba lendo os mais citados do Google Scholar, ou seja, os mais citados permanecem sendo os mais citados, porque estão sendo lidos por serem os mais citados.

Outro malefício da imposição de um grande volume de publicações para os acadêmicos é que muitos experts de primeiro nível acabam requentando ideias. Eu perdi as contas de quantas vezes eu li mais ou menos as mesmas teses e os mesmos argumentos em vários artigos do mesmo acadêmico, enquanto eu procurava me certificar de que não estava deixando algo passar. Isso para não falar dos livros de hoje em dia, que, mesmo quando não são coletâneas de artigos já publicados, são, sim, coletâneas de artigos já publicados! Todo esse volume redundante de obras publicadas que se forma gera perda de tempo para nossa pesquisa.

Mas, como falei, fora da academia, o que se vê não é melhor. Eu também não poderia enumerar quantas vezes eu ouço uma mesma ideia sendo regurgitada em cada podcast, em cada canal do YouTube, em cada blog que sigo. Se alguém publicar um livro de não-ficção com uma ideia interessante, você sabe que aquela mesma ideia renderá milhares de publicações na internet, e isso mesmo nos canais mantidos por pessoas inteligentes, que parecem ter a capacidade de criar conteúdo de qualidade. Eles precisam regurgitar, mesmo tendo a capacidade de criar, porque precisam publicar constantemente, publicar em um ritmo em que ninguém conseguiria manter a qualidade. Daí que eu diga que o mandamento publish or perish se impõe de forma igualmente draconiana dentro ou fora dos muros da universidade.

E, não se engane, o problema com essa cultura não é só o volume de redundância criado, mas também o fato que gente ocupada demais em se manter em movimento não tem tempo para criar valor de verdade. O seu foco se torna a quantidade — seja a pontuação que você pode atingir em uma tabela ou o número de visualizações do seu vídeo — e não a qualidade do que você está criando.

Claro, você pode argumentar que, fora da academia, onde o público dita o sucesso, sem qualidade, você não teria acessos. Bem, eu acho que qualquer pessoa razoável te acharia um tolo por dizer isso, mas, mesmo assim, eu vou te responder. É como eu sugeri acima, se você passar tempo demais lapidando o seu produto antes de publicar, milhares de outros ocuparão o seu espaço e você acabará sendo só mais um anônimo com meia dúzia de visualizações na internet, aquele pontinho que está sempre fora do radar dos algoritmos. (Ok, eu sou anônima e não me importo, mas é porque eu não uso o meu blog ou meu canal no YouTube para pagar as minhas contas, e você tem que pensar do ponto de vista de quem usa.)

Pois, muito bem, se dentro da universidade é ruim e, fora, possivelmente, seja muito pior, então, este é outro texto só para eu continuar constatando isso e me queixando? Não, é verdade que eu ainda não tenho uma saída — desculpe, se te induzi a pensar o contrário acima –, mas eu continuei pensando sobre isso e eu tenho, acho, ao menos uma explicação do porquê de não termos uma saída. É melhor que nada, suponho. Por isso, falei em Estado de Direito, lá no título. Mais precisamente, eu acho que o ideal do Estado de Direito tem a ver com o fato de não conseguirmos nos refugiar dos problemas do mercado dentro da academia.

Veja, muita gente diz que o “produtivismo” acadêmico resulta da invasão do “capital” — whatever it means — na academia. Eu estive pensando que esse discurso tem a sua dose de razão, mas não explica bem o que está em jogo, porque são as regras inerentes ao ideal do Estado de Direito moderno que nos levaram ao ponto em que estamos, e não, diretamente, o capitalismo. Naturalmente, você pode dizer que o discurso usual é um shortcut para o que eu tenho a dizer aqui, mas, mesmo assim, eu acho que vale a pena desenvolvermos a ideia toda, para além dos slogans da extrema esquerda acadêmica, até porque é só aí que fica claro por que não temos para onde correr mesmo.

É parte do ideal do Estado de Direito na modernidade que não haja privilégios, isto é, que a distribuição do bônus da sociedade não se dê com base em certas propriedades subjetivas, como seu lugar de nascimento, gênero, cor da pele, etc., ou com base em relações subjetivas, como seus laços de família ou amizades. Segundo esse ideal, a propriedade privada pode ser transmitida por critérios subjetivos do tipo, mas jamais um bem público. Isso significa que cargos nas universidades públicas ou benefícios públicos para os ocupantes desses cargos precisam ser distribuídos segundo critérios impessoais, ou seja, acima de tudo, segundo critérios mensuráveis, justamente para que a objetividade esteja garantida. Como um resultado, mesmo que seu orientador seja o maior nome do mundo na pesquisa de sua área, você não pode ter um cargo simplesmente porque ele endossa o seu trabalho. Você precisa conquistar o cargo (assim como benefícios posteriores) satisfazendo critérios objetivos. Portanto, será criada uma tabela de pontos para que alguém possa fazer uma conta e dizer que você é a pessoa que, de acordo com esse cálculo, tem que ficar com o cargo ou com o benefício. O cargo ou o benefício pode ser seu se os números disserem que deve ser, não porque a vontade de uma pessoa ou de um grupo de pessoas diz isso.

É claro que ainda não é completamente assim que funciona na academia. Mas você pode reparar que toda decisão que não é estritamente uma função de uma conta tem pairando sobre ela uma nuvem de suspeita. Ainda que montem uma comissão de seleção da qual o orientador do candidato não pode participar, se houver uma parcela do processo que não é perfeitamente mensurável em uma escala cardinal qualquer (número de publicações e número de citações, por exemplo), pronto, alguma dúvida irá sempre pairar sobre o processo. Ah, aquele membro da comissão não era orientador do candidato, mas ele pertence a um departamento fortemente vinculado ao departamento do orientador do candidato. No fim, vejam só, ficou tudo em família, dirão. Na verdade, é isso que dizem. Por isso, quanto mais gente houver na disputa por um recurso qualquer (verba para um programa de pós-graduação, por exemplo), maior o incentivo para que se mostre que a disputa respeitou os ideais do Estado de Direito, quer dizer, para que se possa montar uma escala cardinal (que é uma escala com uma medida objetiva) para ordenação dos candidatos.

É aí que chego ao meu ponto. Como poderia ser diferente? Vivemos uma sociedade grande, anônima e complexa. Sobretudo, não confiamos na virtude uns dos outros. Mesmo que confiássemos, temos valores diferentes e julgamos com base em padrões de excelência diferentes, pois nossa sociedade é plural. Nesse cenário, é impossível nos desviarmos do ideal impessoal do Estado de Direito sem mergulharmos na pura e simples lei do mais forte: chora menos quem pode mais, em cada distribuição de recurso público. É certo que muitos tentam conciliar esse ideal de impessoalidade com critérios qualitativos. Mas não vejo a menor esperança para essas ambições. Ou o critério é quantitativo/cardinal, ou seja, ou ordenamos o primeiro, o segundo, o terceiro… conforme uma medida completamente independente do juízo do avaliador, ou o processo será sempre suspeito. Quanto menor a participação do critério cardinal na formação do juízo final, maior a suspeição sobre o processo todo. Afinal, o meu amigo sempre é qualitativamente superior a um desconhecido, mais ainda quando ele não é aberrantemente inferior. Portanto, meu caro, melhor defender a máxima publish or perish… a menos que você tenha bons amigos.

Professora de filosofia