Roam Research vs. Obsidian: eis a questão

A nossa mente é sistematicamente falha. Não se trata de uma mera incapacidade de acessar todos os fatos ou de manter na memória todos os fatos já acessados. Nossas limitações vão muito além disso. Nós distorcemos o passado de que nos lembramos, sofremos de viés de confirmação, saltamos para conclusões sem inferências válidas, etc… E quando eu digo “nós”, eu quero dizer “nós” mesmo, tanto você quanto eu, e não apenas aquele seu inimigo político cujo pensamento você quer desqualificar. Por isso, é importante, de um lado, desenvolvermos uma disciplina de vigilância sobre o nosso sistema de crenças e, de outro, buscarmos a externalização desse sistema. Este último ponto remete ao que fazemos ao menos desde a invenção da escrita. Nós buscamos recursos externos para suprirmos nossas deficiências cognitivas. Eu dou especial valor a isso, em virtude do meu trabalho, e, por isso, passei uma enorme quantidade de tempo nos últimos dois meses pensando qual ferramenta eu deveria escolher para ser o núcleo intelectual do meu segundo cérebro. Eu escolhi o Obsidian e este post aborda alguns pontos do porquê dessa escolha, tentando, talvez, ser útil na sua própria escolha. Serei pontual, porque uma análise compreensiva desse tipo de software toma muito tempo. Mas, primeiro, falo um pouco da minha trajetória até o Obsidian.

Na verdade, a minha busca por um software que me ajudasse a reunir e conectar o meu pensamento de modo objetivo começou há pouco mais de um ano. De início, eu usei este software no qual escrevo este post, o Ulysses. Em um primeiro momento, achei que seria natural reunir todo o meu pensamento — manuscritos para publicação ou não –em um só lugar. Não deu certo. Migrei para o Bear. Na época, eu trabalhava essencialmente no iPad. O Bear nem sequer tinha uma busca interna às notas no iPad, então, migrei para o Notion, que eu já usava e ainda uso para outras finalidades.

O Notion permitia que eu fizesse tabelas com propriedades avançadas, relacionando uma entrada diretamente com a outra, e, depois, ainda introduziu backlinks. Mas eu ainda não estava satisfeita com o meu fluxo de trabalho. Acabei me convencendo de que o iPad não era capaz de ser o hardware do meu segundo cérebro. Pesquisando um bom software para desktop/laptop, descobri o Roam Research e o Obsidian. Na verdade, eu já havia testado o Obsidian nos seus primórdios, mas logo o deletei, porque ele ainda era muito incipiente na época. Por que acabei ficando com o Obsidian agora, em vez do Roam?

Para começar a explicar, vale dizer que esses dois softwares são tão bons que eu bem que tentei usar ambos. Porém, eu percebi que isso gerava fricção para o meu trabalho. Normalmente, quando eu uso dois softwares teoricamente concorrentes, como Evernote e Notion, eu o faço de tal maneira que sempre seja completamente claro para mim o que fazer com um ou com outro. Eu nunca tenho dúvidas quanto a abrir o Evernote ou o Notion na hora de executar determinada tarefa e nunca reproduzo o conteúdo de um no outro. Mas não era assim com Roam e Obsidian. Eu acabei percebendo que eu só faria bom uso de qualquer um deles se todo meu sistema estivesse nele. Então, eu tive que optar. E foi difícil. Foi mais difícil ainda, porque o Roam, generosamente, me aceitou gratuitamente no seu programa de Scholars.

Outro fator que tornou a minha escolha tão difícil foi a descoberta de que eu poderia exportar todo o conteúdo do Roam em arquivos Markdown, que podem ser abertos em qualquer computador com uma imensa variedade de programas. Por isso, a princípio, senti que optei pelo Obsidian por motivos subjetivos, mais ligados a como eu me sentia trabalhando em cada um desses programas. Mas, talvez, a minha mente inconsciente estivesse simplesmente se saindo melhor do que a minha mente consciente na tomada da decisão. Inclusive, também há estudos que sugerem que, quando temos que tomar decisões envolvendo vários fatores conflitantes, ou seja, decisões que não obedecem a uma simples regra aplicável ao caso, o melhor é nos informarmos o máximo possível, para então pensarmos em outra coisa e deixarmos o cérebro aparecer com a decisão. Parece que nossos cérebros fazem um bom trabalho sozinho nessas ocasiões, sem interferência da nossa consciência. Só que eu estou escrevendo este post, porque acho que, finalmente, entendi porque meu cérebro tomou uma boa decisão.

A sensação de constante desconforto que eu tinha quando trabalhava no Roam era motivada pelo fato de eu ter que ficar o tempo todo focada em organizar o que eu estava criando de um modo que permitisse que o algoritmo do software recuperasse esse conteúdo para mim mais tarde. Por exemplo, eu escrevo textos longos (como se vê!). Essa é a natureza do meu trabalho e do meu modo de viver. Mesmo minhas notas pretensamente atômicas são compostas de um punhado de parágrafos. Pois bem, no Roam, de nada adianta eu colocar um parágrafo na sequência de outro na mesma página, produzindo um texto coeso, se um parágrafo não estiver subordinado ao outro por “indentação” (com o perdão do anglicismo). Com isso, mesmo quando eu não estava produzindo um outline, eu tinha que cuidar de “indentar” o meu texto para ligar os parágrafos entre si na linguagem do Roam. Por que eu tinha que fazer assim?

Suponha que você esteja escrevendo um parágrafo no Roam e queira criar um link para outra página nesse parágrafo que você está escrevendo. Uma coisa muito legal que o Roam faz é já criar essa página referente ao link, caso ela não exista, e alimentá-la com esse parágrafo que você está escrevendo com o link para ela. Agora, se você subordinar o parágrafo seguinte a esse parágrafo que contém o link, ele também aparecerá na página recém-criada, mas, sem a “indentação” que subordina um parágrafo a outro, acabou a mágica. Quando você clicar no link da página recém-criada, você só terá nela o primeiro parágrafo, aquele que continha o link para essa página. Se quiser ver os outros parágrafos, você tem que abrir a página original onde o parágrafo foi criado, como em qualquer outro aplicativo. Portanto, a mágica do Roam não funciona sem “indentação”, sendo que a “indentação” é um elemento artificial e estranho para muitos dos meus textos. O simples fato de eu ter que pensar nisso enquanto escrevo já me atrapalha muito. E fica pior.

Imagine que eu tenha me esquecido ou que eu não queira transformar a ocorrência de conceitos importantes ou de nomes de autores em links enquanto escrevo um parágrafo qualquer no Roam. Nesse caso, eu ainda posso encontrar essas ocorrências de nomes e conceitos pela busca, mas poderei usar só uma busca simples. Eu terei que pesquisar um termo e, depois, o outro. O Roam é uma base de dados, mas ele só é capaz de fazer buscas complexas na sua base de dados por meio de “queries”, que são, justamente, códigos que consultam o sistema.

Você deve pensar em uma query como uma pergunta feita na linguagem que o sistema entende para que ele possa lhe responder. Se você é avesso a equações matemáticas simples ou à lógica, você vai odiar as queries do Roam, porque elas demandam uma sintaxe nesse sentido. Eu mesma gosto de lógica e de matemática, mas não gosto de ter que ficar prestando atenção se não coloquei um parêntese a mais ou a menos toda vez que quero fazer uma busca com uma query mais complexa, composta de vários elementos conjuntivos e disjuntivos. Contudo, o problema maior nem é esse.

O verdadeiro problema é que as queries do Roam só entendem links. Então, se você quiser pesquisar ocorrências conjuntas de um termo x e um termo y, mas só um deles é um link em um determinado parágrafo, o Roam não vai responder a sua query . Será como se esse parágrafo não existisse. Por isso, eu tinha que escrever com essa preocupação de colocar toda maldita palavra que eu pudesse algum dia na minha vida vir a querer pesquisar na forma de um link. O Roam estava dominando a minha forma de pensar enquanto eu escrevia! Eu escrevia para ele, para poder contar com a ajuda dele no futuro. E fica pior, porque as duas coisas se misturam: os links e a “indentação”.

Suponha agora que você queira encontrar no sistema as ocorrências em que você mencionou “John Rawls” e também o “utilitarismo de regras” no mesmo contexto. Você vai precisar de uma query para isso, a menos que você esteja procurando apenas as ocorrências das duas expressões em um mesmo parágrafo. Acontece que, se você tiver escrito “John Rawls” em um parágrafo e “utilitarismo de regras” no parágrafo seguinte da mesma página, sem “indentação”, ou seja, deixando os dois parágrafos no mesmo nível hierárquico, para o Roam, isso será a mesma coisa que escrever essas duas expressões em pontos completamente diferentes da base de dados.

Se você fizer uma query do tipo AND, ou seja, uma query restrita às ocasiões em que as duas expressões acontecem juntas, essas duas ocorrências da mesma página simplesmente não vão aparecer no resultado da busca. Agora, se você fizer uma query do tipo OR, ou seja, uma query aberta a todas as ocasiões em que você tenha usado tanto uma quanto outra expressão, então o Roam vai retornar tanto ocorrências de uma mesma página quanto ocorrências em páginas diferentes dessas expressões. Agora, aparecerão os dois parágrafos da mesma página com “John Rawls” e “utilitarismo de regras”, mas também aparecerão todos os outros parágrafos com “John Rawls”, de todas as outras páginas, e todos os outros parágrafos com “utilitarismo de regras”, de todas as outras páginas.

Qual a solução? De novo, você deve “indentar”. O parágrafo seguinte, com a expressão “utilitarismo de regras”, deve ser subordinado ao parágrafo anterior, com a expressão “John Rawls”. Se as duas expressões forem links, o Roam finalmente entenderá o que você quer quando fizer a sua query. Um horror para escritores, convenhamos. Era por isso que eu me sentia tão mal usando o Roam e só pensava em voltar para o Obsidian.

Mas como é tudo isso no Obsidian? Muito simples. A busca do Obsidian é extremamente poderosa. Além de poder direcionar e restringir a busca no sistema de diversas maneiras, por exemplo, para a localização em uma pasta ou textos que ficam abaixo de um mesmo subtítulo, você pode usar os operadores lógicos das queries — “AND, OR, -“ — diretamente no campo de busca. Significa que a busca dele entende lógica booleana. Além disso, ele entende que o que está em uma mesma página está relacionado, porque a unidade básica dele são os arquivos, e não os blocos. Na prática, ele vai encontrar aquele meu exemplo de “John Rawls” em um parágrafo e “utilitarismo de regras” no parágrafo seguinte sem jogar em cima de mim tudo que eu escrevi sobre uma coisa ou outra no sistema inteiro. E eu não preciso usar links nessas expressões para que elas sejam “buscáveis”. Por isso, tudo é mais natural para um escritor.

Além disso, se eu quiser usar queries, ou seja, fazer buscas dentro de notas, fora do campo de busca, a sintaxe é muito mais simples. Basta criar um bloco de código dentro de um arquivo, identificar como “query” e escrever como eu escreveria no campo de busca, sem parênteses ou chaves com que me preocupar. No caso, eu uso queries para forjar o que o Roam faz automaticamente: a alimentação de uma nota com seus backlinks. De forma nativa, o Obsidian mostra backlinks em um painel à parte da nota. Existe um plugin de terceiro para que backlinks sejam incluídos nas notas no Obsidian, mas eu prefiro usar queries, porque, usando queries, eu também consigo forjar filtros para backlinks.

Imagine, por exemplo, que eu queira ver todos os backlinks da minha nota sobre utilitarismo de regras, menos aqueles que envolvam John Rawls. No Obsidian, eu faço isso criando uma query, como você pode ver na imagem abaixo. Para tirar o filtro, basta deletar a extensão sobre John Rawls. Eu mantenho queries ativas nesse tipo de nota que eu uso apenas para coletar backlinks. Essas notas são o ponto forte do Roam, mas eu não estou disposta a pagar o preço de usar isso nele, considerando que, no meu caso, o preço é passar a pensar como ele.

Esta é uma query no modo de edição. Coloca-se o link entre aspas para que a busca retorne apenas os backlinks, e não todas as ocorrência da expressão "utilitarismo de regras".
Esta é uma query no modo de edição. Coloca-se o link entre aspas para que a busca retorne apenas os backlinks, e não todas as ocorrência da expressão “utilitarismo de regras”.
Esta é a query no modo de visualização, ou seja, com o retorno da busca. No caso, foram excluídos os backlinks referentes a John Rawls por causa do sinal "-" colocado antes do nome do autor entre aspas na busca.
Esta é a query no modo de visualização, ou seja, com o retorno da busca. No caso, foram excluídos os backlinks referentes a John Rawls por causa do sinal “-” colocado antes do nome do autor entre aspas na busca.

Por fim, eu gostaria de fazer uma observação sobre a portabilidade do seu sistema no Roam. Novamente, vale lembrar que a base do Roam são blocos, sendo as páginas apenas uma coletânea de blocos. Assim, uma das grandes vantagens de se usar o Roam é a facilidade com que ele permite a reutilização de blocos. Somos incentivados a trabalhar com referências a blocos, muito mais do que a páginas. Acontece que essas referências são propriedade do Roam. Significa que não existe um padrão para se estabelecer esse tipo de referência. Por isso mesmo, o Roam é importante. Ele criou isso e faz funcionar muito bem. Só que isso não funciona fora dele em absoluto. Significa que, se você usar o Roam da forma que o diferencia de outros softwares, se você tirar o máximo de proveito dele, a sua base de dados não servirá para muita coisa fora dele. E fica pior. Você tem que verificar se o próprio Roam já é capaz de entender as referências a blocos dele mesmo quando elas são reimplantadas no sistema. Até pouco tempo atrás, se a pessoa perdesse o seu gráfico e tivesse que usar um backup, os links para os blocos que estavam no backup não funcionariam mais. Dentro do Roam!

Então, essas são as razões pelas quais estou confortável por ter escolhido o Obsidian. Ele me serve sem que eu tenha que me adaptar a ele por temer, de outra forma, não conseguir fazer uso da minha base de dados no futuro, quando ela tiver se agigantado. Além disso, ele me deixa tranquila quanto a não ser dependente dele. Mesmo quando eu uso referências a parágrafos específicos dentro dele, coisa que outro editor de markdown não conseguiria entender, eu o faço de tal forma a conservar intacto o link para o arquivo como um todo, que é feito em markdown padrão.

Neste exemplo, fora do Obsidian, eu teria que deletar a parte do link que fica do símbolo # em diante, conservando o link para o arquivo.
Neste exemplo, fora do Obsidian, eu teria que deletar a parte do link que fica do símbolo # em diante, conservando o link para o arquivo.

Espero que, seja lá qual for a sua escolha, ela também seja uma escolha bem informada que lhe deixe confortável com ela. Acima de tudo, lembre-se que — seja no papel, no Roam ou no Obsidian — o importante é escrever!

Professora de filosofia