Existe um tipo de pessoa insuportável: aquele que acredita só agir por razões conclusivas. Se essas pessoas escolhem um par de sapatos, elas acham que, nas mesmas circunstâncias, todos deveriam escolher o mesmo par de sapatos sob pena de irracionalidade. Elas não admitem que suas razões possam ser apenas adequadas, ou seja, tão boas quanto algumas outras razões para fazermos escolhas opostas no mesmo contexto; razões que não são derrotadas por outras razões conflitantes, mas que também não derrotam todas as outras razões conflitantes. Em suma, para essa gente, só existe um jeito certo de agir e, claro, é o jeito delas.

Irritadas com essas pessoas, um outro tipo esbraveja que todas as decisões possíveis são igualmente boas. Ou, melhor dizendo, não são boas nem más. São a expressão dos valores subjetivos de cada um; são, no máximo, o resultado de um cálculo de utilidade baseado nas preferências do indivíduo. As preferências variam de pessoa para pessoa, então pessoas diferentes, ainda que calculem, tem mesmo que tomar decisões diferentes, e uma não é mais ou menos racional que outra por isso. Aqui, note, também existe uma razão que é sempre a mais forte. Porém, essa razão varia de pessoa para pessoa. É a utilidade de cada um, medida por suas preferências.

Nesse debate entre racionalistas e subjetivistas, o filósofo Joseph Raz propõe uma terceira via no mínimo interessante. Simplesmente, não há razões conclusivas sempre disponíveis, sejam elas universais ou privadas. Existem múltiplos valores envolvidos em uma mesma ação. Alguns serão negados pela ação — e nos darão razões para não agirmos — enquanto outros serão reforçados por ela — e nos darão razões para agirmos. Ao deliberarmos, comparamos esses prós e contras. Porém, frequentemente, um lado da balança não pesa nem mais nem menos do que o outro. Na verdade, muitas vezes, nem temos uma balança que seja capaz de medir valores diferentes que se opõe. Então, entra em cena a vontade e, entre razões opostas, porém, igualmente adequadas, fazemos escolhas que moldam nosso temperamento e nosso caráter, forjam nossa individualidade.

Essa vontade é racional e responsável, porque ela se preocupa em não agir por alguma razão derrotada. Mas, como, amiúde, nenhuma razão aparece triunfante, requerendo dela uma decisão como a única racionalmente possível, a vontade tem seu espaço de criação reservado. Essa vontade, portanto, não é uma escrava dos prazeres — que, para ela, são apenas mais um valor a ser considerado na ação — e nem uma mera serva da razão, que, no fim, a deixa à vontade para agir dentro de certos limites. Nesse agir, nessa escolha da qual — como Sartre sabia — não podemos nos furtar reside a tragédia, mas também toda a beleza, do humano.

Professora de filosofia