Que tal praticar o distanciamento social também na internet?

Sabe aquela pessoa que janta com você com o celular sobre a mesa? É um olho em você e outro no celular, você sabe como é. Essa pessoa também perde metade das cenas de qualquer filme ou série que ela assista, porque ela sempre tem duas telas para acompanhar. Eu sei que o dicionário Oxford até incluiu uma palavra para isso, só estou com preguiça de pesquisar qual é. Particularmente, eu chamo essa gente de “zumbi do WhatsApp”. São zumbis, porque eles estão sempre apenas de corpo presente, onde que quer que eles estejam.

Os zumbis do WhatsApp nem suspeitam do tempo de vida que eles gastam em redes sociais, porque eles estão crentes de que fazem duas coisas ao mesmo tempo: dirige/olha mensagem; come/responde mensagem; anda/olha mensagem, etc. Tolice! Ninguém faz duas coisas ao mesmo tempo! O que podemos fazer é alternar nossa atenção incessantemente entre duas tarefas. Só que estudos, cujos links eu também estou com preguiça de procurar, comprovam que isso aumenta o stress e diminui a produtividade. Ninguém acha mais multitasking uma coisa bonita. Quando falo “ninguém”, claro, refiro-me a gente antenada sobre produtividade. Os zumbis do WhatsApp, naturalmente, ainda acham isso lindo.

Enfim, este post não é só uma desculpa para eu zoar o zumbi do WhatsApp, essa figura que eu realmente detesto. Ele tem um propósito um pouco mais útil também. É para compartilhar como minha vida tem sido maravilhosa desde que eu adotei o distanciamento social na internet e tentar te inspirar a fazer o mesmo.

Eu deletei primeiro, obviamente, o famigerado WhatsApp. Significa que eu não tenho mais uma multidão ao meu lado me cutucando 24 horas por dia para chamar minha atenção para o que não me importa. Ao menos tão bom quanto, foi deletar o Facebook. Eu não vejo mais sinalização de virtude e nem evasão de privacidade de gente fingindo que é feliz para causar inveja nos outros. Você não sabe o bem que faz viver sem isso. O Twitter, eu só mantenho, porque leio exclusivamente listas de notícias de áreas específicas de interesses meus. Mas eu programei para ele um limite de 10 minutos por dia, que sincroniza entre todos os meus dispositivos, evitando que eu passe mais tempo lendo essas listas do que eu gostaria. Já o Instagram é outro que dançou por completo e também me faz tanta falta quanto um caça-níqueis faria para alguém com umas moedas no bolso.

Aliás, é disso que sempre chamam esse tipo de aplicativo: máquinas caça-níqueis. Eles são feitos para explorarem as fragilidades da nossa vontade. Eles te induzem a fazer o que você não faria deliberadamente, ou seja, o que você não decidiria fazer se realmente tivesse parado para pensar no assunto. Quem quer passar, digamos, 30 minutos por dia vendo fotos no Instagram? Quem não tem coisa mais valiosa para fazer com 30 minutos? Mas é por isso mesmo que cassinos não têm relógios ou janelas, não é?

Não foi só tempo que eu ganhei quando adotei o isolamento social na internet. E, olha, eu ganhei muito tempo. Mas eu também notei uma melhora substancial na minha capacidade de concentração. Com o tempo, você não tem mais aquele impulso de pegar o celular para checar alguma coisa. Você também não fica mais pensando em alguma coisa que leu alguém dizendo na internet e no que você gostaria de responder mais tarde ou acha que já deveria ter respondido. A sua mente passa a estar no espaço onde você realmente se encontra e, não, ele não é aquele limbo mostrado naquela propagando estúpida do carro com wi-fi (que ideia estúpida de produto também). Acima de tudo, a sua mente passa a estar focada naquilo que você escolheu pensar, não naquilo que outras pessoas colocaram na ordem do dia. Menos jornalismo, mais literatura de verdade, por favor.

Eu poderia falar ainda que você se sente mais livre sem redes sociais, porque, hoje em dia, elas são um dos principais instrumentos de controle social. Todos vigiam a todos. O maior benefício, porém, ainda é outro. Não é nem o tempo que você ganha ou a atenção que você recupera. É a paz, a tranquilidade de espírito. Sem redes sociais, é como se eu tivesse desligado uma britadeira que ficava ligada ao meu lado o tempo todo. Era muito ruído.

Devia existir um nome para essa poluição de opinião, ao lado da poluição sonora e da visual. Talvez, exista. Mais uma coisa para eu ter preguiça de procurar. Que tal poluição doxástica, por enquanto? Sei que eu estava tão farta de tantas opiniões e eu nem percebia o quanto elas me irritavam e me estressavam. Agora, se eu quero uma opinião sobre um assunto em particular, eu pesquiso por um expert. Eu não preciso saber o que todo conhecido meu, que acontece de não ser infectologista ou epidemiologista, acha, por exemplo, das estratégias de combate ao coronavírus. Eu não preciso e, acima de tudo, eu não quero saber.

A percepção desse excesso de ruído, que, para mim, atingiu níveis insuportáveis, também fez com que eu abandonasse este blog por muito tempo. Eu não quero contribuir para a poluição doxástica. Vou escrever apenas de vez em quando e sempre sem alarde. Por sinal, eu esqueci de falar como são chatas aquelas pessoas que marcam todo mundo no Facebook toda vez que escrevem alguma coisa. Nossa, como é boa a vida sem mais nada disso. De toda forma, este post pode compensar o seu impacto na poluição doxástica se ele te convencer a experimentar um pouco o distanciamento social na internet.

Que tal se você começasse pensando quanto tempo você quer mesmo gastar com redes sociais e passasse a controlar o tempo que você passa nelas? No iOS, tem uma ferramenta do sistema para isso. No Android, eu acho que você pode baixar um aplicativo para acompanhar isso. Já deve ser a quarta ou quinta coisa que tenho preguiça de pesquisar.

Enfim, o tempo é importante. Algum dia, eu volto para falar mais sobre o quanto ele é. Enquanto isso, em vez de ficar horas lendo o que seus conhecidos pensam sobre a ordem do dia, por que você não dá uma olha no que o Seneca escreveu sobre a Brevidade da Vida? Taí mais uma dica para compensar o impacto deste post na poluição doxástica.

Professora de filosofia