Quantas horas eu trabalho?

Eu sou professora de filosofia em uma universidade. Meu dia sempre começa com uma corrida. Não sou muito musical, então prefiro ouvir algum podcast enquanto corro. Invariavelmente, escolho entrevistas com filósofos ou cientistas. É uma boa oportunidade para eu fazer o que mais gosto: aprender alguma coisa nova, algo que me revela algum aspecto fascinante da realidade, e isso sem a pressão de ter que escrever um paper defendendo alguma posição sobre o assunto ou dar uma aula sobre isso. Só que é difícil eu passar uma semana sem mencionar o que aprendi em um desses podcasts em alguma aula. Agora, considerando que a criatividade do trabalho acadêmico depende da amplitude e da diversidade do conhecimento do acadêmico, e considerando que, para o filósofo, não perder de vista uma certa visão do todo é mais importante ainda, será que eu estou trabalhando enquanto estou correndo?

Eu uso muitos experimentos de pensamento no meu trabalho de pesquisa. Dia desses, em um desses podcasts, ouvi um filósofo que criticava o uso de experimentos de pensamento em pesquisas filosóficas da área de ética. Ele defendia que recorrêssemos à literatura no lugar. Aí eu fiquei com uma dúvida maior ainda: eu estava trabalhando enquanto ouvia essa entrevista que me fez refletir sobre minha metodologia de pesquisa, assim como também estou trabalhando sempre que leio bons livros de literatura? Daqui a pouco tempo, uma revista nacional importante vai publicar um artigo acadêmico meu em que uso passagens de 1984 para desenvolver meu argumento (o professor daquele podcast ficaria contente). Eu estava trabalhando quando lia 1984?

A minha dúvida só aumenta. Quando estou embaixo do chuveiro, involuntariamente (e com a consciência pesada, viu, ambientalistas?), acabo gastando mais tempo (e água) pensando em como responder argumentos contrários a alguma hipótese que quero defender em meu trabalho do que me lavando. Eu estou trabalhando quando tomo banho?

Bom, você já entendeu onde quero chegar. Eu não sou recepcionista de alguma firma e nem empacotadora de supermercado. Eu não sou melhor do que recepcionistas e empacotadores. É bem possível que eles sejam mais importantes do que eu. Mas a natureza de nossos trabalhos, a relação que temos com nossos trabalhos, é completamente diferente.

O meu trabalho me acompanha onde quer que eu vá. E isso não é só porque tenho sempre um Kindle para tirar da bolsa em qualquer fila ou sala de espera. É porque o meu trabalho é o meu jeito de viver, de entender o mundo e me relacionar com ele. Existem horas em que eu tenho o compromisso de estar com algumas pessoas em algum lugar definido. Mas é o que eu faço nas outras horas – em realmente muitas das outras horas da minha vida – que me permite ter alguma coisa a dizer para essas pessoas durante essas horas marcadas. Se eu tivesse que passar todo o meu tempo produtivo dizendo algo para pessoas em lugares definidos pelo meu empregador, eu não teria mais nada para dizer a essas pessoas. Produtividade, no caso do meu trabalho, requer que me deixem em paz com meus livros e meus pensamentos na maior parte do meu tempo.

E, por falar em produtividade, vale mencionar uma confusão bem comum na nossa sociedade. Você já parou para pensar por que tantos professores universitários estão se defendendo da acusação de que trabalhariam apenas 8 horas por semana? Eu mesma estava dizendo que, no meu caso, nem tem como isso ser verdade, dado o papel constitutivo que o meu trabalho tem para minha mente e minha vida. Mas vamos pensar por que as pessoas acham tão errado que alguém se ocupe com obrigações profissionais por apenas 8 horas na semana. Não haveria aqui uma confusão entre ocupação e produtividade?

Há certos empregos em que o produto envolve um certo número de horas de disponibilidade. Qualquer atendimento ao público serve de exemplo notório. Mas todo produto é dessa natureza? Não há casos em que o importante é gerar um produto de boa qualidade, independentemente do número de horas que se gastou para isso? E o aumento do número de horas trabalhadas não pode até mesmo prejudicar a qualidade de certos produtos que exigem mais criatividade?

Um caso relacionado. Meus alunos precisam assistir cerca de 20 horas de aulas por semana. Não seria melhor se fossem duas horas – mas duas horas verdadeiramente brilhantes – deixando a eles o resto do tempo para digerirem devidamente o conteúdo dessas duas horas? Eu quero saber quantas horas um aluno ficou com a cara em cima do livro – talvez, pensando na namorada ou na morte da bezerra enquanto isso – ou eu quero saber se ele tem coisas interessantes para me dizer sobre o livro?

Ah, mas, se não cobrássemos o trabalho em horas ocupadas, aí os vaga-bundos não iriam trabalhar. O importante é garantir que estejam sempre ocupados, e não vadiando. Ócio produtivo é uma ova! É isso o que diz o superego da nossa época.

A tal ética do trabalho, para nós, é bater ponto e olhar o Facebook enquanto se espera o tempo passar. (Enquanto se reza para o tempo passar.) Somos pagos para isso. Vendemos nosso tempo. Não uma produção.

Já reparou como as queixas das pessoas de estarem ocupadas demais, na verdade, são só um teatrinho? Elas não estão se queixando de uma vida muito corrida. Elas estão se gabando de uma vida muito corrida! Elas querem que você saiba – ou que você pense – que elas trabalham 80 horas por semana. Que lindo! Merecem uma estrela na testa!

Claro que muitos coitados, cujo trabalho é repetitivo e desumano, não têm opção. O produto do trabalho deles não varia muito em função de quem o faça. Só conta que alguém – qualquer um! – se ocupe disso por um tempo. Esses trabalhadores só têm a vender suas horas de ocupação.

Nem todos têm esse destino. Na própria academia, assim como em n repartições públicas e mesmo em empresas privadas, muitos se ocupam inutilmente, sem sequer refletir sobre o valor do que estão fazendo, tudo para ganharem a estrelinha na testa das muitas horas ocupadas. Esses não estão pensando no objeto da pesquisa até enquanto mastigam o almoço. Eles estão convocando reuniões que não têm hora para acabar. Estão inventando comissões cujos relatórios ninguém vai nem ler. O importante é que estão ocupados, ocupados por muitas horas. Eles trabalham muito. Trabalham por muitas horas! E o que eles produzem mesmo?

Professora de filosofia

Professora de filosofia