Qual o objetivo do seu projeto de pesquisa? Alguns conselhos para iniciantes na pesquisa em filosofia

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Eu não sou a pessoa mais experiente sobre o assunto, mas, ao longo dos últimos anos, eu devo ter lido algumas centenas de projetos de pesquisa na área de filosofia. O que mais me chamou a atenção nessa experiência foi constatar a dificuldade dos autores desses projetos de formularem plausivelmente uma questão que a pesquisa se destinasse a responder. Embora eu não tenha números precisos, a minha impressão pessoal é que os projetos que forçam a barra, colocando em forma de questão o que não é uma genuína questão, formam até uma maioria.

Sempre que eu me deparo com um projeto com uma questão artificial assim, eu avanço imediatamente para as referências bibliográficas. Em geral, eu encontro nesses projetos só uma meia dúzia de itens bibliográficos, e a maioria deles ainda são genéricos em relação ao tema do projeto. Por isso, meu principal conselho para quem quer iniciar uma pesquisa acadêmica é: estude muito. Mas estude antes! Você não deve ingressar em um programa de pós-graduação com uma ideia vaga do que gostaria de estudar para, então, começar a estudar quando a pesquisa se iniciar formalmente. Antes de ingressar, você precisa fazer um bom levantamento bibliográfico para saber em que ponto de uma discussão que já existe a sua pesquisa se encaixa.

Agora, eu posso explicar melhor o que eu entendo por um objetivo artificial em um projeto de pesquisa. Via de regra, nesses projetos, o candidato ao programa de pós-graduação anuncia ter o objetivo de compreender alguma coisa, por exemplo, a causalidade em Hume. Ora, quem vai compreender a causalidade em Hume? Você, autor do projeto? Sinto muito, mas isso não justifica uma pesquisa. Pesquisas acadêmicas não se justificam por fins subjetivos. Se você não entendeu um conceito, problema seu. Estude mais! Leia mais! Assista umas palestras! Matricule-se em uma disciplina! Mas entenda que mestrados ou doutorados não são meros cursos intensivos para você aprender um certo tema. Nesses cursos, você se forma, sobretudo, como pesquisador. Isso significa que você precisa aprender como contribuir com uma comunidade concreta que já desenvolve pesquisas sobre seu objeto. Em última análise, isso significa que seu objetivo não pode ser entender o que os outros já estão carecas de saber. Seu objetivo é mostrar que esses pesquisadores que estudam o mesmo que você não entenderam algo ou não entenderam tão bem quanto deveriam. Tem que haver algo faltando em uma comunidade, algo que sua pesquisa proverá. É assim que se justifica uma pesquisa.

Claro que você pode dizer que o que eu disse acima aplica-se com muito mais razão ao doutorado do que ao mestrado. No mestrado, afinal, você não precisa defender uma tese. Isso é verdade. Contudo, isso não quer dizer que uma dissertação de mestrado possa ser uma coleção de resumos dos textos do principal autor estudado. E, acredite, é assim que acabam os projetos que começam com aquele tipo de questão artificial. O que se espera de um mestre, no mínimo, é que ele seja alguém que consegue explicar um debate de uma forma elucidativa. A dissertação não pode ser dispensável para quem já conhece a sua bibliografia, só porque ela não defende uma tese. No mínimo, ela analisa e sintetiza essa bibliografia de uma maneira produtiva, por exemplo, categorizando as diferentes posições e fixando os pontos de divergência entre os autores. Então, no doutorado, o candidato ao título oferece sua perspectiva sobre esse debate, procurando mostrar que os participantes do debate teriam a ganhar se olhassem seu objeto por essa perspectiva. Eles corrigiriam erros, veriam as coisas com mais clareza, conseguiriam lidar melhor com certas outras questões, etc.

Enfim, o que eu acho que mais faz falta aos candidatos, sobretudo, ao mestrado é terem essa noção da pesquisa acadêmica como um debate público historicamente situado no qual a pessoa pretende ingressar ao pleitear que seu projeto seja aprovado. A atitude que eu mais vejo é a seguinte: “esta pesquisa é só para mim, eu quero aprender isso, eu vou realizar a pesquisa para eu aprender isso”. Bom, não é assim que funciona na academia. A academia é um empreendimento coletivo de busca do conhecimento. O conhecimento acadêmico, em outras palavras, é socialmente construído. Portanto, ao elaborar seu projeto, não pense nos seus objetivos pessoais. Ao menos, não tente justificar seu projeto explicitamente com base neles. Pense, sim, em como você pretende convencer determinados pesquisadores reais de que o trabalho deles tem algo a ganhar se você for bem sucedido no trabalho que você pretende realizar.

Sou professora de filosofia. Escrevo sobre temas ligados à ética, à filosofia política, à filosofia política e à prática de pesquisa.

Sou professora de filosofia. Escrevo sobre temas ligados à ética, à filosofia política, à filosofia política e à prática de pesquisa.