Pequeno manual para elaboração de notas de literatura

O que são notas de literatura?

Primeiramente, o que é uma nota de literatura? Seria o popular “fichamento”? Isso depende do que você entende por um fichamento, é claro. O que chamo aqui de notas de literatura são simplesmente as notas que contêm ideias ou informações extraídas de uma fonte, o que significa que o conteúdo dessas notas não é de sua autoria. Em suma, tais notas apenas registram ideias elaboradas ou informações coletadas por outros, sendo que esses “outros” devem receber o devido crédito se você utilizar o material publicamente. Daí que essas notas precisem conter a referência precisa da fonte. É verdade, porém, que isso é mais importante para acadêmicos e estudantes. Afinal, se você simplesmente escreve um blog amador como este, por exemplo, as linhas que dividem a sua contribuição original do que você encontrou nas suas fontes são bem mais tênues.

Além da referência completa da fonte, outros metadados — que são os dados sobre a nota, e não dados que formam o conteúdo da nota — podem compor uma nota de literatura, como, por exemplo, a data em que a nota foi criada, as palavras-chave ou tags aplicáveis (que ajudam a organizar o conteúdo das notas em coleções) e uma lista de outras notas com as quais a nota de literatura em questão se relaciona diretamente, isto é, via hard links ou links bidirecionais. Seguindo uma convenção, eu recomendaria que essa área de metadados ficasse em uma área à parte do texto do conteúdo da nota (no cabeçalho e/ou no rodapé) e fosse padronizada. Inclusive, para ganhar tempo, se você trabalha de forma digital, o ideal é que você tenha uma template para suas notas de literatura. De toda forma, como estou falando aqui das suas notas de literatura, e não de um fichamento que você entregará ao seu professor (nesse caso, caberia a ele definir o que ele espera desse fichamento), no final, você é quem definirá quais metadados suas notas de literatura conterão e como serão apresentados.

Como dividir as notas?

O princípio da atomicidade, amplamente adotado por quem leva notas a sério, requer que cada ideia receba sua própria nota e cada nota contenha apenas uma ideia. É uma técnica que você bem pode querer adotar. Nesse caso, provavelmente, você terá que pensar em como reunir as notas de um mesmo item bibliográfico, algo importante, em especial, para acadêmicos e estudantes. Por exemplo, você se valerá simplesmente do fato de cada nota extraída de um mesmo livro ter a mesma referência ou você criará uma tag para cada livro inserindo-a em todas as notas referentes àquele livro? Se houver uma ordem importante entre essas ideias atômicas, como o seu sistema captará essa ordem? São problemas que você precisa resolver quando opta pela atomicidade. Eu não resolvo, porque não opto (não no caso das notas de literatura).

Essas coisas também dependem muito do programa que você utiliza, caso seu sistema seja digital. Por exemplo, no Roam Research, faz bastante sentido ter uma página para cada livro, pois esse programa já entende cada página como uma coleção de blocos, que são as notas atômicas. Mas, mesmo no Roam, você também poderia simplesmente colocar uma tag com o título do livro em cada nota atômica (em cada bloco) que fizesse dele em páginas diferentes. Nesse caso, o Roam coletaria cada nota (bloco) com essa tag como um backlink na página referente à tag, porque, nesse software, tags, funcionalmente, são páginas, e vice-versa.

Então, para resumir, você tem que conhecer as ferramentas disponíveis, ver quais são acessíveis para você e escolher aquela que sirva para o modo como você quer trabalhar. Particularmente, eu uso uma ferramenta chamada Obsidian, que é apenas um cliente para lidar com meus arquivos de texto. No Obsidian, acho mais funcional ter todas as minhas notas de literatura de um item bibliográfico em um mesmo arquivo, em vez de ter todas essas notas separadas em arquivos diferentes e reunidas como backlinks para uma mesma página ou como notas contendo a mesma tag. Eu escrevo a página do texto original em frente a cada ideia atômica e coloco essas ideias em uma ordem de razões na forma de um oultine. Eu uso os subtítulos do texto original para dividir os outlines dentro de cada arquivo.

Contudo, passei a fazer páginas ou arquivos diferentes para cada capítulo de um mesmo livro para evitar notas muito gigantes. Isso é possível, porque capítulos costumam ser suficientemente insulados dentro de livros. Nesse caso, eu faço uma nota para servir de hub para todos os seus capítulos.

Mas você pode bem optar por ter todas as notas de um mesmo livro na mesma página. Como eu disse, isso faz muito sentido, em especial, no Roam Research.

Como ligar notas?

Estejam as suas notas atômicas dentro de um mesmo arquivo ou não, o certo é que você perceberá conexões particularmente estreitas entre passagens que estão em itens bibliográficos diferentes ou em diferentes localidades de um mesmo item bibliográfico. Hoje em dia, temos tecnologia para transformar essas conexões conceituais em verdadeiros links, então, por que não usar essa tecnologia? Eu sempre penso o seguinte: se eu estiver escrevendo um artigo e for utilizar esta nota que estou escrevendo agora, eu não vou querer encontrar aquela outra nota sobre o mesmo problema ou conceito que já escrevi também? Por exemplo, se eu tomo nota de uma crítica x que um autor A faz a uma tese y, sendo que possuo no meu sistema outra nota em que um autor B responde à crítica x, eu não quero encontrar uma dessas notas sempre que eu encontrar a outra? Claro que a resposta é “sim”, portanto, eu quero essas duas notas conectadas via hardlink: um link direto de uma para a outra. Inclusive, eu preciso garantir que, não importa a qual dessas notas eu chegue primeiro, eu chegarei também à outra. No Obsidian, eu faço isso criando em cada bloco de texto, dentro de um arquivo, uma referência ao outro bloco de texto, do mesmo arquivo ou de um arquivo diferente, que se relaciona com ele.

Ademais, se eu tenho comentários a fazer sobre essas conexões, eu faço isso em notas separadas, destinadas a expressar o que eu penso, em vez de registrar o pensamento alheio. É o que entendo por “notas permanentes”, mas falo delas em outra ocasião. Agora, só as menciona para dizer que também coloco links para elas nos pontos oportunos das notas de literatura.

Agora, imagine que haja muitos blocos diferentes que se relacionam entre si. Digamos que, em todo o meu sistema, eu tenha sete blocos de sete arquivos diferentes que discutem exatamente o mesmo problema z. Dada a natureza do problema e meu interesse por ele, ainda é possível que eu insira novos blocos sobre z no futuro. Nesse caso, seria muito trabalhoso colocar seis referências a outros blocos em cada um dos sete blocos. Você poderia optar por colocar uma tag inline, ou seja, uma tag dentro do texto para servir de ponto de coleta de todas essas passagens. A tag seria, por exemplo, “#problemaz” ou, simplesmente, “#z”. Pessoalmente, nessas ocasiões, eu prefiro não usar uma tag, mas, sim, um link para uma nota vazia que servirá apenas para coletar esses backlinks.

Eu também uso essas notas vazias para coletas de backlinks sempre que um conceito importante, uma tese, um problema ou um autor é mencionado. A ideia é basicamente a mesma. Se eu estiver escrevendo um artigo ou preparando uma aula em que eu mencione o ponto, são essas as passagens que eu quero encontrar. Nesse caso, inclusive, eu posso criar a nota vazia já na primeira aparição do ponto no meu sistema.

É muito comum que usuários do Roam Research usem notas vazias dessa forma, porque, como eu falei, o Roam só distingue visualmente as tags e as páginas. Funcionalmente, são a mesma coisa. O Obsidian distingue funcionalmente páginas, que são os arquivos, de tags. Mas nada lhe impede de criar arquivos vazios com o único propósito de servir de ponto de coleta de backlinks. A atualização 0.12 do programa tornou isso bem mais útil, porque permite que os backlinks sejam vistos dentro de uma nota no modo de pré-visualização e também permite que vejamos bastante contexto dos backlinks sem termos que abri-los. Eu confesso que já vinha trabalhando dessa forma, porque estava esperando essa atualização.

O que anotar?

Passando ao conteúdo da nota de literatura, dentro da proposta metodológica em que eu acredito, citações diretas devem ser evitadas, porque é a escrita em linguagem própria que garante o entendimento do conteúdo estudado. Citações diretas são ainda piores no mundo digital, porque, como sabemos, nesse caso, elas são feitas pelos atos de copiar e colar. Na verdade, hoje em dia, nem isso, pois aqueles que possuem um pouco mais de conhecimento das ferramentas digitais já saberão como automatizar a importação de passagens grifadas em arquivos digitais para algum serviço de sua escolha, reduzindo a praticamente zero a sua intervenção na criação da suposta nota de literatura. No meu entendimento, essa automatização deve ser evitada. Enfim, você deve escrever a sua nota de literatura, pois, ainda que a ideia não seja sua, nós queremos que o entendimento dessa ideia seja, não é mesmo?

Agora, uma vez que você defina a forma da sua nota de literatura e se disponha a escrevê-la em suas próprias palavras, surge uma grande dúvida: o que anotar? Enquanto você lê, muita coisa parecerá interessante. Como selecionar? Bem, em primeiro lugar, você precisa entender que ser seletivo é importante, porque você estará formando uma base de dados para lhe servir no futuro. Isso significa que, se você anotar qualquer curiosidade que encontrar, seu sistema terá ruído demais, de modo que, ao longo do tempo, será cada vez mais difícil encontrar nele o que realmente lhe importa.

Ademais, ser seletivo não é uma mera questão de reduzir o volume do seu sistema para que ele seja mais funcional, mas também de já fazer a sua intervenção autônoma para a constituição do seu conhecimento. Por isso, no fim, só você pode dizer o que você deve anotar. São os seus interesses que vão lhe guiar. Eu só posso sugerir algumas questões para que você faça a si mesmo quando estiver decidindo se cria ou não uma nota de literatura sobre algum ponto, como, por exemplo: Você se imagina produzindo algo (um vídeo, um texto, um podcast…) sobre esse ponto em algum momento? Esse ponto se relaciona de perto com outros pontos que já aparecem entre as suas notas? Esse ponto muda a sua maneira de pensar sobre algum assunto que lhe seja caro? Esse ponto responde a alguma indagação que você vinha se fazendo? Bom, se sua resposta a questões assim é sempre negativa e tudo que você tem a dizer a favor da criação dessa nota é que o ponto em questão é interessante, talvez, seja melhor não criar a nota. Afinal, o seu objetivo não é fazer um compêndio de conhecimentos gerais, é?

Quando anotar?

Um outra dúvida que temos ao elaborar uma nota de literatura é o momento em que faremos a anotação. Há uma recomendação bem comum neste ponto, de acordo com a qual deveríamos, primeiro, fazer uma leitura panorâmica do material, para sabermos do que se trata, para, depois, lermos para valer, e até lermos várias vezes. De novo, eu diria que a decisão sobre esse fluxo é muito pessoal: depende do tipo de coisa que você lê e do que funciona para você. Nunca é bom acreditarmos em receitas muito rígidas. Particularmente, como eu leio textos com um grau de complexidade alto demais, não vejo benefício algum em fazer uma primeira leitura rápida. Eu leio, sim, a tábua de conteúdos, o resumo, o prefácio… enfim, qualquer elemento pré-textual que me ajude a decidir o que quero ler da obra e, sobretudo, se quero mesmo ler a obra. Feito isso, leio para valer, com o máximo de concentração de que eu for capaz. O ideal, obviamente, seria reler. Mas, honestamente, com o volume que precisamos ler, ao menos, se somos acadêmicos, quem pode se dar ao luxo de reler todo item de sua lista de leituras, em vez de seguir em frente com ela?

Eu procuro ler da forma mais ativa possível, grifando o texto com um sistema de cores que fui aprimorando ao longo dos anos. Gosto de ler no iPad, sempre que possível, utilizando algum aplicativo que permita um espaço extra para o uso da caneta digital. No caso, tenho usado um app chamado LiquidText, porque ele me permite manipular os excertos do texto e escrever em uma área de trabalho ao lado do texto. Normalmente, eu faço as notas de literatura a partir desse material gerado à parte, quando concluo a leitura de uma seção do texto. O LiquidText tem se mostrado fundamental para isso, porque ele facilita demais o trabalho de revisar os excertos e fazer uma nova seleção do que realmente importa. Afinal, nem tudo que eu grifei merece se tornar um excerto, assim como nem todo excerto merece entrar em uma nota de literatura.

Eu sei que muita gente divide a tela do computador entre um leitor do texto e o aplicativo no qual as notas definitivas serão tomadas para ir anotando conforme vai lendo. Pessoalmente, eu não recomendo essa prática, porque já a usei sem bons resultados. Quem faz notas de literatura simultaneamente à leitura tende a fazer notas demais, justamente porque anota antes de ter como avaliar a relevância de cada detalhe para um problema mais geral. Quantas vezes, por exemplo, você já não grifou de imediato uma passagem, achando que ela era muito emblemática para o que o autor estava querendo dizer no texto, para depois se deparar com outras passagens bem mais esclarecedoras com respeito ao mesmo ponto? Por isso, em vez de sair anotando tudo, julgo válido definir um ponto de desfecho de uma parte ao menos do texto lido (o fim de uma seção ou de um capítulo), antes de começar a construir aquele conteúdo na nota de leitura, para que você tenha uma noção melhor do que realmente importará no final, a ponto de ir para a nota definitiva.

Um último conselho

Por fim, o meu principal conselho é que você não leia com pressa, como resultado da ansiedade que pode ser gerada pela extensão da sua lista de leitura. Eu não sinto a menor inveja de quem contabiliza dezenas de páginas lidas ao dia. Normalmente, se você perguntar a uma dessas pessoas o que diz um determinado artigo que ela leu, vai parecer que ela sofreu um derrame cerebral.

Eu demoro muito para ler cada item da minha lista, porque eu sempre procuro parar para me certificar do meu entendimento de cada parágrafo. Eu sempre me pergunto o que eu entendi e se eu concordo ou não com o que está sendo dito. Por isso, é muito comum que, depois de interromper a leitura, entre um parágrafo e outro, para meditar sobre as implicações do que eu acabei de ler, eu acabe chegando a uma questão ou problema que o autor abordará logo no parágrafo seguinte. Pode parecer, então, que eu perdi tempo interrompendo a leitura, pois era só seguir um pouco adiante para encontrar o próprio autor formulando e respondendo a minha questão. Mas essa impressão de prejuízo é ilusória. Na verdade, é fundamental para a minha compreensão do texto que eu tenha parado para chegar por conta própria àquele mesmo ponto ao qual o autor me conduziria depois. Só assim, quando o autor introduz esse desdobramento do seu pensamento, eu realmente entendo o porquê dele ter sido introduzido. Se eu deixasse o autor me guiar passivamente, sem fazer o meu próprio esforço para encontrar o caminho, eu também saberia onde ele chegou no final. Mas eu nunca saberia como ou por que ele chegou lá.

Professora de filosofia