Quanto você se lembra das aulas que assistiu há 5 anos? Ou dos livros que leu no ano passado? Pouco, não é? Talvez, menos ainda do que você pensa. Sabe quando você assiste um filme pela segunda vez e nota que as coisas não se passaram nele como você se lembrava? Pois é, nossa memória é falha, tanto por reter menos do que gostaríamos que ela retivesse, quanto por não ser tão fidedigna quanto gostaríamos que ela fosse.

Tanto em virtude das deficiência de nossa memória quanto por sentirmos que entendemos mais do que de fato entendemos, comumente, quando estudamos um assunto qualquer, temos o que alguns chamam de “ilusão de aprendizado”. Achamos que entendemos o assunto, mas, se tentarmos explicá-lo em nossas próprias palavras, gaguejamos e enroscamos. Para piorar, dias depois, até esse emaranhado de ideias vagas já sumiu da nossa mente.

Será que a aquisição de conhecimento formal de maneira sistemática é, então, um privilégio dos especialmente bem dotados pela natureza? Talvez, essas pessoas existam. Longe de mim querer dizer que a natureza não produz gênios ou, simplesmente, algumas pessoas particularmente aptas para a vida intelectual. Mas será que isso significa que nós, pessoas comuns, medianas, precisamos deixar o universo do conhecimento para essas pessoas privilegiadas? Eu, ao menos, não estou disposta a isso. Este post é para gente como eu, que não se acha mais mentalmente capaz do que a média, porém, aspira sempre a ter uma produção acima da média, tanto pela quantidade quanto pela qualidade.

Primeiramente, vamos tirar uma coisa do caminho. Produtividade não é palavrão. No meio acadêmico, a palavra “produtividade” tende a ser associada com demandas quantitativas que fazem pouco sentido. Daí que tenham até cunhado o termo pejorativo “produtivismo” para descrever essa pressão por publicação atrás de publicação, mesmo que nenhuma delas agregue valor real ao conhecimento já disponível. Só que produtividade não tem que ser isso. Quem, afinal, não quer ser produtivo? Todo trabalho tem um produto, ainda que ele seja inseparável da atividade em si, como, talvez, seja o caso no canto, na dança, etc. Seja lá como for, quem trabalha quer que seu trabalho renda bons frutos, quer tirar o máximo de proveito possível de cada esforço feito. Ou, ao menos, é assim quando a força de trabalho não é meramente trocada por um valor monetário, sem que sequer haja esperança de que um trabalho melhor resulte em mais valor monetário. De toda forma, este post não é para quem vê seu trabalho intelectual desse modo, portanto, produtividade nos interessa.

Dito isso, como podemos ser produtivos no trabalho intelectual, dispondo de ferramentas tão precárias encerradas em nossos crânios? Eu não creio que a resposta seja: “trabalhando mais do que os naturalmente mais competentes”. Particularmente, eu até me considero do tipo hard working. Faz parte da minha identidade acreditar que a dignidade de uma pessoa está ligada ao trabalho duro. Mas trabalhar mais horas, por si só, não resolve o problema se você continua se esquecendo da maior parte do que lê e do que ouve, não é mesmo? É aí que eu quero chegar. É o seu sistema e o seu método que contam mais do que tudo!

Você quer assegurar que o número de horas que você trabalha não seja jogado fora? Você precisa desenvolver um bom sistema. Resumidamente, você precisa pensar fora do seu cérebro biológico. E note que eu não trago novidade alguma aqui. Essa foi a primeira coisa que te ensinaram na escola. Ou você já foi para a escola algum dia sem levar um caderno e um lápis?

Desde que a escrita foi inventada, o ser humano aprendeu a pensar, a conectar ideias, fora da sua própria mente. Isso propiciou à nossa espécie um salto evolutivo fantástico. Como indivíduos, a quantidade e a qualidade do conhecimento que produzimos e acumulamos também está diretamente relacionada com a qualidade e com a quantidade de ideias que coletamos e processamos fora de nossas mentes, por meio da escrita. Tomar notas, em suma, é essencial.

Quando você lê um texto ou assiste uma aula tomando notas, você não apenas possui um material para referência futura, quando sua pobre mente biológica já tiver se esquecido de tudo que você leu ou ouviu, como também é tomando notas que você garante que realmente está focado em tudo que está lendo ou ouvindo, acompanhando cada volta que o argumento dá. As anotações prendem a sua atenção ao texto falado ou escrito e, se você anota com suas própria palavras, você bloqueia a possibilidade do que chamei acima de “ilusão de aprendizado”. Para além ainda, se as suas notas têm boa qualidade e confiabilidade, elas podem tornar dispensável um retorno futuro ao texto lido ou à aula gravada. Bastará consultar suas notas, que serão, se você for bem sucedido, muito mais acessíveis.

Com isso, fica claro que você precisa adquirir duas habilidades: primeiro, você precisa aprender a tomar boas notas; segundo, você precisa aprender a organizar as suas notas. Posso dar alguns conselhos triviais. Por exemplo, as notas devem ser seletivas ao máximo. Brevidade é importante, porque, do contrário, você checaria o livro ou a gravação da aula de novo, em vez de consultar suas anotações. Sem brevidade, as notas não têm propósito algum para além do que eu disse acima sobre ajudá-lo a reter a atenção e assegurar sua compreensão. Acabando de tomar as notas, você poderia jogá-las fora. Portanto, não anote tudo que pareça importante. Eu sei que é fácil falar isso e difícil fazer. Mas, com o tempo, seus interesses se desenvolvem e seu critério para tomar notas é o que tem alguma conexão com o que você já tem. Vai ficando mais fácil, eu prometo.

Em segundo lugar, você deve usar as suas próprias palavras, como eu já disse, e deve anotar a fonte das notas. Não anote uma ideia sem anotar, por exemplo, a página do livro de onde você a tirou. Um dia, você vai se arrepender amargamente se você fizer isso. Uma última coisa que não quero esquecer de dizer é que você precisa separar rigorosamente as ideias que você teve, e está anotando para não esquecer, das ideias do autor estudado ou do seu professor. Se suas notas não identificarem claramente o que é seu e o que não é, com o tempo, você não vai se lembrar nem disso. Enfim, para conselhos mais precisos, pesquise métodos na internet. Cornell, por exemplo, é um método famoso.

Depois disso, vem a organização das notas. Uma coisa é fundamental: não pense em simplesmente arquivar suas notas em pastas, sendo uma pasta para cada assunto. Isso não vai dar certo, porque uma nota A pode se relacionar com uma nota B por terem um determinado tópico em comum, enquanto a nota B pode compartilhar um tópico diferente com uma nota C, que, por sua vez, compartilha ainda um terceiro tópico com a nota A, e assim por diante. Você precisa pensar em suas notas como compondo uma rede.

Dá para organizar suas notas em rede com papel e caneta também. O método Zettelkasten, do sociólogo alemão Niklas Luhmann, é paradigmático. Eram caixinhas com fichas. Cada ficha tinha um número de identificação e as caixinhas não representavam tópicos como pastas no seu computador. Luhmann pensava como eu. Ele atribuía a própria produtividade, uma obra gigantesca de dar inveja a qualquer contemporâneo nosso, ao seu método. O pensamento dele, segundo ele mesmo, estava nessas caixinhas. Portanto, também vale a pena você pesquisar mais sobre isso na internet. Tem gente adotando o próprio método Zettelkasten como objeto de pesquisa para entender melhor processos de aprendizado e produtividade. O livro How to Take Smart Notes, escrito pelo professor Sönke Ahrens, é inspirado no método de Luhmann. Eu recomendo a leitura.

Todavia, particularmente, eu nunca usaria papel e caneta para uma empreitada assim. Normalmente, quem estuda métodos tende a desprezar ferramentas. Já notei isso várias vezes. Parece que a pessoa quer sobrevalorizar o próprio ensinamento subestimando o valor de boas ferramentas. Na prática, boas ferramentas são decisivas, ou, ao menos, é essa minha experiência. Por isso, eu recomendo aplicativos para anotações que usem tags. Tags devem ser palavras-chave muito específicas. Não receie usar expressões com muitas palavras, se isso for necessário. Abuse das tags, coloque quantas forem necessárias em uma mesma nota. E, então, certifique-se de que o aplicativo permita que você acesse facilmente todas as notas que compartilhem uma mesma tag.

Hoje em dia, quem gosta desse assunto anda obcecado por um novo aplicativo chamado Roam Research. Parece interessante mesmo. É um aplicativo baseado exatamente no tipo de visão sobre notas que externei acima. Ele cria links bidirecionais entre sua notas com incrível facilidade e ainda lhe mostra todas as conexões entre elas em um gráfico. Porém, eu não pude testar esse aplicativo, porque, no momento, ele não aceita novos usuários. Além disso, pelo que ouvi dizer, ele será por assinatura e não será barato. Portanto…

Também sei de gente que usa o Notion para esse tipo de organização. Particularmente, eu uso o Notion para outras finalidades, mas, como ele é gratuito agora para planos pessoais, você pode querer testar. Naturalmente, o bom e velho Evernote também é uma opção natural. O Evernote está investindo muito na ferramenta de busca e tem tags. Eu, de novo, uso Evernote para outras finalidades, não para isso. Mas seria uma recomendação que eu faria, sim.

O que eu uso, particularmente, é um aplicativo chamado Bear, outro queridinho de quem gosta de pesquisar sobre essas coisas. Mas, infelizmente, ele não está acessível fora dos sistemas da Apple. Se você usa o sistema Android, você pode usar, por exemplo, o iA Writer. Ao menos, nos sistemas da Apple, é um aplicativo fantástico. Eu espero que a experiência seja a mesma no Android, mas não posso garantir. De toda forma, como é gratuito, pelo que vi, você pode testar e ver o que acha. Existe versão dele para Windows, mas me parece que é paga.

Em suma, eu recomendo que você pesquise por um aplicativo como o Bear ou o iA Writer para seu sistema operacional. Mas se você não gosta do estilo minimalista, com escrita em Markdown (ou se você não sabe o que é isso e nem quer saber), vá de Evernote mesmo e seja feliz. Ah, tome nota dessas dicas para não se esquecer!

Professora de filosofia