Os Apps que eu uso e por que são tantos — Parte III (PDF Expert, LiquidText, LumaFusion…)

Esta é a parte final de uma série em que eu passo em revista alguns aplicativos que me ajudam a ser mais produtiva. Se você tiver interesse, pode checar as primeiras duas partes AQUI e AQUI. Eu começo o post de hoje pelos apps que servem para ler, anotar e/ou editar arquivos pdf.

Arquivos pdf

Se você está no ecossistema da Apple, parece-me natural que o seu editor de pdf seja o PDF Expert. Esse aplicativo é uma criação da empresa Readdle, que possui muito know how no gerenciamento de arquivos, já que ela também é a desenvolvedora do Documents. Para mim, essa função é importante, porque, ainda que eu tenha adotado o Zotero como organizador das minhas referências bibliográficas — e, inclusive, esteja muito arrependida por ter demorado tanto para fazer isso — eu ainda resisto à ideia de colocar os arquivos correspondentes às referências neste último software. Prefiro deixá-los na biblioteca do PDF Expert mesmo, até porque o Zotero não tem um aplicativo para iPad.

Por sinal, é no iPad que o PDF Expert brilha. Além da capacidade de gerenciar e organizar os seus arquivos pdf com muita eficiência no tablet, ele também conversa intimamente com o Spark, um outro aplicativo da Readdle, que eu recomendei nesta série como cliente de e-mail. Por exemplo, se você precisa preencher um formulário ou assinar um documento que recebeu anexo a um e-mail, o Spark lança o PDF Expert, você faz o que precisa fazer e o PDF Expert lança o Spark já com o arquivo devidamente anexado a uma resposta a ser escrita. São dois apps muito completos, ágeis e bem integrados. A junção de ambos certamente vai lhe ajudar, se você trabalha regularmente com arquivos pdf no seu iPad.

Quando se trata da capacidade de editar e anotar os arquivos, o PDF Expert também não fica devendo a qualquer outro aplicativo. Inclusive, como você pode adicionar páginas entre as páginas de um arquivo para fazer as suas anotações, eu considero o PDF Expert uma opção melhor do que aplicativos dedicados à escrita à mão, como GoodNotes, Notability e Noteshelf, a menos que você queira criar arquivos especificamente para fazer suas anotações, sem unir pdf e notas em um arquivo só. Por sinal, eu já usei muito os três últimos aplicativos citados, mas, hoje em dia, prefiro fazer minhas notas de leitura digitadas mesmo, o que é assunto para outro post. (Em todo caso, se estiver curioso, dos três, eu indicaria o Noteshelf, que é o menos famoso deles.)

Um outro ponto que eu gosto muito no PDF Expert é que ele é possivelmente o único editor de PDF com um tema completamente escuro, o que significa que não apenas os menus ficam escuros quando optamos pelo Dark Mode, mas o próprio fundo das páginas do pdf pode ficar negro por opção do usuário. Eu não estou totalmente certa da inexistência dessa função em outros apps. Mas não é uma função comum e eu a aprecio muito, como meus leitores já sabem.

Ainda que eu considere o PDF Expert como um editor quase perfeito entre os editores padrão, confesso que, de uns tempos para cá, não o tenho usado muito para ler e anotar meus pdfs. Por quê? Justamente, porque, hoje em dia, os leitores fora do padrão estão mais maduros.

Mas o que é um leitor de pdf fora do padrão? É justamente um aplicativo daquele nicho que entendeu, primeiro, que o iPad é melhor leitor de pdf do que um computador convencional e, segundo, que o iPad abre possibilidades para além da analogia com o texto impresso. Quero dizer com isso que um aplicativo como o PDF Expert pensa o que faremos com um arquivo pdf a partir do que fazemos com um livro de papel. Mas esse não é o caso com o MarginNote 3 e o LiquidText, os líderes desse setor mais inovador.

Os dois últimos aplicativos favorecem mais a leitura ativa, porque vão além das possibilidades mais convencionais de grifarmos o texto, escrevermos algo com a caneta ou com o teclado nas margens da página e adicionarmos balõezinhos com comentários digitados mais longos. Tanto o MarginNote 3 quanto o LiquidText investem na ideia de uma área de trabalho de expansão indefinida ao lado da área de visualização do pdf. Assim, você pode colocar excertos do texto nessa área e manipular esses excertos para sua melhor compreensão do texto. O MarginNote 3 opta pela estrutura de um mindmap feito de excertos e comentários. Já o LiquidText tem uma estrutura mais livre e fluída.

Particularmente, eu acho o MarginNote 3 extremamente complicado de se usar e opto pelo LiquidText, que eu considero plenamente intuitivo. Mas é verdade que o MarginNote 3 visa mais o público acadêmico, ao passo que o LiquidText parece pensar primordialmente em um público de profissionais liberais. De toda forma, eu não usaria mesmo os flashcards e outras funcionalidades de estudo, voltadas à repetição espaçada, que só o MarginNote 3 tem.

Outro fator para que eu escolha o LiquidText é que todas as funções que eu uso fazem parte da versão gratuita desse app. Eu não posso usar a caneta para escrever na área de trabalho sem pagar pelo app, mas, como eu posso criar caixas de texto e digitar o que quero, não me sinto tentada a pagar R$169,00 pela versão completa do app. Essa versão paga me parece mais interessante para quem quer anotar vários pdfs em um projeto só, o que não é meu caso também. Eu estudo um arquivo de cada vez.

Se você tem um PC ou um Mac, agora, você também pode usar o LiquidText. Mas não acho tão interessante quanto no iPad, porque, como eu disse, trata-se de um app que foi criado para tirar proveito dessa capacidade de manipulação do espaço digital, livre das restrições físicas do papel, que o iPad oferece com mais naturalidade do que um desktop/laptop. Além do mais, o meu MacBook Pro de 5 anos e, naturalmente, processador Intel sofre quando eu quero manipular muitos excertos na área de trabalho do LiquidText. O iPad, com processador da Apple, tira essa atividade de letra, mesmo com menos memória RAM (o que já nos remete à próxima seção deste texto, sobre edição de imagem). Então, tenha em vista a capacidade de seu processador e o quanto de memória RAM tem seu computador se for usar o app fora do seu lugar de origem, que é o iPad. Recomendo ao menos testar antes de comprar, se quiser a versão paga.

Por fim, uma função do LiquidText a ser destacada é que ele permite que os grifos feitos nele sejam enviados ao arquivo original que ele abriu. Isso significa que eu posso anotar meus pdfs usando LiquidText e continuar usando PDF Expert como gerenciador dos arquivos. Perfeito!

Agora, vamos à última seção desta série. Vamos falar de imagens.

Apps para gravar/editar vídeos e fotos

Como sou alguém que faz uso de um notebook antigo e sem muita memória RAM, já que foi comprado em uma época em que eu lidava só com textos, o iPad e o iPhone são as minhas saídas para poder editar vídeos de duração considerável (cerca de 30 minutos) em alta resolução. Lembro que, na primeira vez em que usei o iPad para editar um vídeo, tentei o iMovie e foi um desastre. Meu projeto simplesmente não saía mais do aplicativo, porque o iMovie usa muita memória para renderizar o projeto, sendo que meu iPad tem apenas 64Gb de espaço de armazenamento no total.

Quando pedi ajuda com esse problema a pessoas mais experientes, disseram-me que a questão era eu querer editar um vídeo em um tablet. Supostamente, a falta de memória RAM é que seria o verdadeiro problema, e não o que eu estava descrevendo. Felizmente, essa orientação que me passaram se baseava em puro desconhecimento dos produtos da Apple por parte da pessoa. O problema era realmente o peso do arquivo renderizado em comparação com o espaço que eu tinha livre na memória de armazenamento. Hoje, eu sei que, usando o app certo, o meu iPad Pro 2018 tira de letra a edição de vídeos 4K em múltiplas faixas. O limitador é apenas o espaço para armazenamento dos arquivos mesmo, já que, infelizmente, eu não posso editar arquivos em um drive externo, sem importar os arquivos para o iPad. No caso, o app certo não é o iMovie, é o LumaFusion, que requer menos espaço de armazenamento para o projeto renderizado, além de ser melhor no geral.

Espera-se que, neste ano, a Apple finalmente lance seus apps profissionais para o iPad, o que incluiria o Final Cut Pro, mas, ao menos enquanto isso não acontece, o LumaFusion é o mais perto que você pode chegar de uma edição profissional em plataforma móvel. Eu não diria que o app é intuitivo. Acho que, a menos que você já seja um editor experiente, você vai querer assistir os tutoriais disponibilizados pela LumaTouch. Mas esses tutoriais são muitos bons e eu diria que, depois de assisti-los, você usará o app com muita tranquilidade.

Atualmente, eu uso o LumaFusion no iPhone por causa da questão do espaço de armazenamento. Tenho 256Gb no iPhone e isso me permite realizar nele todo o processo de produção de um vídeo, como a Apple prometeu que seria o caso no lançamento do iPhone 12 Pro. Você grava, edita e publica; tudo no iPhone, graças à ajuda do LumaFusion (e do Filmic Pro). Acho isso fantástico e, por isso, abro aqui um parêntese para comentar o preço do iPhone.

Realmente, qualquer iPhone é muito caro no Brasil. Mas quando você considera essa capacidade de gravar, editar e publicar vídeos, tudo com um dispositivo só, torna-se um bom negócio, considerando-se que qualquer eletrônico é muito caro no Brasil. No meu último vídeo, por exemplo, eu sequer usei um microfone externo. Eu tampouco tenho iluminação especial, como ring light e coisas assim. Uso apenas lâmpadas comuns. Isso significa que meu iPhone é simplesmente a única ferramenta especial de que eu preciso para o processo completo de criação de um vídeo, que, na minha opinião, não é profissional, mas, ao menos, é “assistível”.

Na verdade, com um pouquinho mais de dedicação e aprendizado, eu percebo que eu poderia gerar resultados bem melhores, ainda usando só o iPhone. Infelizmente, eu tenho pouco tempo para os vídeos e, por isso, eles ainda deixam tanto a desejar. Mas, em suma, a conta que eu fiz na hora de comprar o iPhone 12 Pro Max foi o quanto eu gastaria se eu fosse comprar uma câmera dedicada com uma lente com a mesma abertura de diafragma, um microfone, um gravador de áudio, cartões de memória para o vídeo e para o áudio, mais um computador capaz de editar vídeos tão pesados (algumas aulas que eu gravo passam dos 50 minutos).

Agora, certamente, você não precisa desse iPhone se você for usá-lo como mera ferramenta de comunicação, acesso à internet e câmera casual. Nesta série, eu apenas sugiro que você adeque suas ferramentas ao seu caso de uso, conforme suas possibilidades financeiras. E é sempre bom lembrar que é só isso que essas coisas são: ferramentas. A meu ver, um dos piores traços da nossa sociedade é o uso simbólico de ferramentas para marcar status social. Não fosse por isso, nem teríamos que pagar tão caro por elas. Mas isso também é matéria para outro post.

Acima, eu mencionei que outro app me ajuda com meus vídeos. É o Filmic Pro. Porém, para poder tirar o devido proveito dele, provavelmente, você também precisará de alguns tutoriais, bem como de noções básicas de fotografia. Ele permite um controle da câmera maior do que aquele disponível no app nativo do iPhone, mas também é indicado como o melhor app para gravação de vídeo em dispositivos Android. Particularmente, o que eu gosto nele é a possibilidade de gravar vídeos sem saturação, para uso posterior de uma LUT, que o próprio Filmic Pro fornece e já vem no LumaFusion. Isso facilita muito a correção de cor do vídeo, considerando que eu não tenho boas condições de iluminação, por usar apenas a iluminação comum do meu escritório, e tampouco tenho muito conhecimento de edição de vídeo.

Por fim, para edição de fotografia, eu uso dois apps que estão acima das minhas capacidades atuais, mas que eu espero aprender a usar melhor um dia (por isso, os comprei). O Affinity Photo e o Procreate, com toda certeza, estão entre os poucos apps para iPad que merecem o título de softwares profissionais. Você pode usar o Affinity em um Mac ou PC também. Novamente, eu o uso no iPad, porque é o tipo de trabalho que requer processador/memória RAM. A vantagem desse app com relação ao Photoshop é que você paga uma vez só (eu fujo de assinaturas sempre que posso).

No caso do Affinity Photo, eu não sigo a regra de usar uma ferramenta adequada às minhas capacidades e necessidades. Ele é overkilling para meu caso de uso, mas o quis mesmo assim, porque, como um hobby, eu quero fazer cursos para aprender a usá-lo devidamente. Na verdade, já estou quase na metade de um curso sobre ele. Um dia, quem sabe, eu chego lá!

O Procreate é um caso mais complicado para eu justificar, porque ele é “feito para artistas”, e eu não sou artista. Mas eu gosto de usá-lo, queria ser desenhista em uma próxima encarnação, de modo que ele também entra na categoria das ferramentas cujo aprendizado eu tenho por hobby.

Então, acho que é isso. Uso outros apps, mas os que listei nesta série são os que considero como minhas ferramentas de trabalho propriamente. Pense bem na escolha das suas ferramentas. Elas não apenas determinam o seu grau de eficiência como moldam o seu modo de trabalhar. Como dizia Benjamin Franklin, o dinheiro gasto com elas é nosso melhor investimento.

Professora de filosofia