O que eu chamo de “notas permanentes” e como as escrevo

minhas notas permanentes

Fontes

Neste post, eu explico a parte mais essencial da minha rotina de pesquisa acadêmica: a composição e a organização das notas permanentes. Em primeiro lugar, é sempre bom deixar claro que eu não inventei o conceito de notas permanentes. Eu o aprendi lendo o livro How to Take Smart Notes, do filósofo Sönke Ahrens, que, por sua vez, o extraiu do Zettelkasten, ou seja, da caixa de notas do sociólogo Niklas Luhmann. Porém, eu digo isso só para que os desavisados saibam que não estou sendo original, e não porque eu pretenda ser fiel às técnicas usadas e ensinadas por Ahrens e Luhmann. Em outras palavras, eu trato essas fontes apenas como fontes de inspiração, enquanto adapto livremente o que aprendo nelas. Aliás, sugiro que você faça o mesmo (inclusive, com este post). Afinal, por que deveríamos ser ortodoxos e inflexíveis na aplicação de um sistema ou método cujo propósito é apenas facilitar os nossos próprios fins?

O porquê do nome

Outro ponto que vale a pena esclarecer, para evitarmos mal-entendidos, é que a expressão “notas permanentes” não deve sugerir de modo algum que eu não altere tais notas frequentemente. Mesmo que existam fatos permanentes na realidade (uma afirmação com a qual não quero me comprometer), poucas vezes, o nosso conhecimento de algum fato possui alguma permanência. Por isso, para mim, essa terminologia significa apenas que estou escrevendo com a intenção de produzir notas que tenham valor duradouro ou indefinido para mim, por oposição a notas que só me servem enquanto estou trabalhando em um projeto em particular. Portanto, para mim, notas permanentes têm esse nome, porque são escritas para serem úteis em vários contextos futuros que não posso antecipar no momento em que as escrevo.

Notas permanentes são autorais

Além do fato da nota permanente ser escrita em linguagem publicável, um outro elemento constituinte fundamental em notas permanentes como as uso é que elas contêm as minhas ideias, e não as ideias de outras pessoas. Claro que elas podem — e, como estou na academia, até devem — conter referências. No meu sistema, essas referências são fornecidas por links para notas de literatura nos pontos apropriados. (A propósito, eu expliquei como faço notas de literatura aqui).

link para nota de literatura fazendo as vezes de referência em uma nota permanente

Notas permanentes são atômicas

Por falar no que favorece o pensamento claro e rigoroso, um dos princípios mais importantes aplicáveis às notas permanentes, que eu procuro seguir fielmente, é o princípio da atomicidade: uma ideia por nota. Se rejeitamos esse princípio, é fácil que uma nota acabe se transformando em um ensaio ou no primeiro draft de um trabalho qualquer, o que não é seu propósito. Porém, a dificuldade é entendermos o que significa “uma ideia” nesse contexto. Eu mesma tenho lutado com isso. Porém, acho que, agora, cheguei a um entendimento que me deixa confortável e, por isso, o compartilho com vocês. Eu tenho reservado uma nota para cada parágrafo publicável que escrevo. Assim, no fim das contas, escrever notas permanentes, para mim, nada mais é do que escrever parágrafos para futuros textos que eu ainda não sei como serão.

Como dou títulos às notas permanentes

O problema da atomicidade das notas torna-se muito mais manejável quando adotamos um certo método para escolhermos os seus títulos. Quando eu penso no título de uma nota como a sentença declarativa que a nota sustenta (ou em uma frase que poderia facilmente ser transformada nessa sentença), eu entendo qual é, afinal, a ideia atômica daquela nota. Dificuldades em encontrar a sentença apropriada para expressar o título da nota me sugerem problemas com o conteúdo da nota, que deve estar confuso ou muito vago. Daí que meus títulos, cada vez mais, venham sendo elaborados com essa finalidade analítica, e não apenas organizacional.

título de uma de minhas notas permanentes
minha pasta de notas de literatura organizada em ordem alfabética
buscando notas recentes pelo quick switcher

Notas permanentes são blocos de construção

Ao falar da atomicidade, já foi inevitável tratarmos implicitamente de um outro princípio: o da conectividade. Notas permanentes são os tijolos desse tipo de construção. O seu valor consiste nas suas conexões. Isoladas, valem muito pouco. Um tijolo sozinho, afinal, é bem barato. Essas conexões são o coração do método Zettelkasten, porque o grande diferencial desse método é a recusa da organização das notas em pastas que isolam certos conjuntos de notas de outros conjuntos. Sabe quando você tem um caderno já completo, mas não lembra mais de uma única ideia que tenha anotado nele? Pois é, pastas fazem isso também. Elas serão cemitérios de ideias se você se valer delas para conectar suas notas.

busca restrita, por conjunção de tags
busca mais ampla, por disjunção de tags
exemplo de nota começando por link para outra nota que deve ser lida antes dela
nota permanente com links para outras notas que explicam asserções feitas nela

Conclusão

É fácil notar como essas sequências de notas que vou construindo no meu Zettelkasten acabam formando trabalhos publicáveis que não foram planejados “top down”. Todavia, isso não significa que, com o tempo, eu não acabe estudando para completar essas sequências e poder retirar dali um artigo, uma aula ou uma palestra. Essa tem sido a minha experiência desde que adotei o método. Eu vejo sequências se fortalecendo entre as minhas notas e direciono o trabalho de pesquisa para gerar as notas que estão faltando nessas sequências. Durante esse trabalho, outras sequências vão sendo alimentadas e se cruzando. Assim, o trabalho no Zettelkasten é uma labuta diária, enquanto o trabalho nos manuscritos é apenas o momento da colheita quando os frutos parecem suficientemente maduros.

Professora de filosofia