Meu primeiro draft escrito com o Zettelkasten

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Um método ou sistema é tão bom quanto os seus resultados. Nesse sentido, eu gosto do que dizem sobre o Zettelkasten: ele não torna coisa alguma mais fácil, ele torna tudo possível. Bem entendido, eu não acho que eu vá me tornar tão produtiva quanto Niklas Luhmann só por ter adotado um Zettelkasten. Muito longe disso! Há diversos outros fatores determinando a quantidade e a qualidade da produção de alguém. Ainda assim, um bom sistema pode permitir que pessoas ordinárias como eu fiquem um pouco acima da mediocridade a qual elas estariam condenadas de outra forma. Ao menos, é nisso que aposto minhas fichas. Nesse sentido, já faz um ano que comecei a planejar como seria o meu Zettelkasten e, agora, embora partes dele ainda estejam em construção, já me senti capaz de escrever a partir dele o primeiro draft de um artigo. Relato minha experiência para o caso de ser útil para você.

A primeira coisa que eu percebi é que fiz muito bem em interpretar o princípio da atomicidade — só uma ideia por nota — das notas permanentes no nível do argumento, e não da sentença. O que significa isso? Bem, como o livro do Sönke Ahrens — How to take smart notes — não ajuda muito com a implementação prática de um Zettelkasten, eu recorri à internet para ver como os outros estavam fazendo. Descobri que muita gente entende uma nota permanente como uma sentença longa e complexa que sintetiza notas de literatura. Certamente, essas notas são mais atômicas do que as minhas, mas não me pareceu que seriam úteis para mim.

A rigor, quando alguém diz “uma ideia só por nota”, você pode perguntar: “Ok, mas uma ideia simples ou uma ideia complexa?” Se for uma ideia simples, como diria um filósofo moderno, teria que ser uma ideia do tipo “vermelho”. Uma sensação como vermelho costuma ser um exemplo moderno de ideia simples, mas de que me serviria uma nota com a palavra “vermelho” escrita nela? De nada! Então, é claro que notas úteis contêm ideias complexas. Aí é que surge o problema.

Uma boa tese de doutorado contém uma única ideia complexa. Então, o quão complexa pode ser a ideia para ser uma boa candidata à ideia de uma nota atômica? É claro que isso é relativo. É uma questão de bom senso e cada um vai descobrir o grau de complexidade que lhe é útil. A mim, basta que cada nota responda a uma única questão que eu possa formular clara e precisamente. Mas isso significa que minhas notas variam de um parágrafo ao equivalente a uma seção de um artigo acadêmico. Quer dizer, elas são mais extensas do que os exemplos usuais da internet. Como eu disse, a unidade delas é pensada por mim em termos argumentativos, e não no nível da sentença completa.

Quando eu comecei a trabalhar no primeiro draft do meu próximo artigo com essas notas feitas dessa forma, eu descobri que algumas poderiam ser menores sem prejuízo argumentativo, porque, sem querer, acabei desdobrando o assunto. Tenho que ficar atenta a isso no futuro. De toda forma, percebi que meu modelo é muito prático, como eu esperava, porque não preciso colocar 50 notas juntas para formar cada seção do meu texto. Usei de duas a cinco notas por seção e isso facilitou o meu trabalho.

Acima de tudo, o meu trabalho foi facilitado pelo modo como eu encadeie as notas. Sönke Ahrens sempre enfatiza que é isso que importa e eu sou muito grata a ele por ter nos ensinado isso. A maioria das minhas notas começa me remetendo à nota ou às notas que eu deveria ou poderia ler antes delas, assim como termina me remetendo a notas que respondem questões relacionadas ou desencadeadas pela nota em questão. Isso significa que, cada vez que eu pinço uma nota do meu Zettelkasten, é como se eu puxasse um fio que vai me conduzindo até formar um artigo.

Em vários momentos, eu fui apenas traduzindo do português para o inglês do meu manuscrito. Achei essa experiência fantástica. De certa forma, terminei meu draft bem antes do que eu imaginava, com muito menos esforço. Porém, veja bem, a rigor, eu não trabalhei menos horas nele. Afinal, cada nota dessas significou muito trabalho no dia em que ela foi feita. Por isso, gosto daquela citação: nada mais fácil, tudo possível. Eu prefiro diluir o trabalho de escrita na minha rotina a escrever todo um manuscrito a partir de meras passagens grifadas em livros e anotações vagas espalhadas por lugares diferentes, como eu fazia antes.

Mas nem tudo correu tão bem. Por vezes, notei que cometi falhas argumentativas sérias nas notas. Agora mesmo, vou substituir por completo uma nota assim que eu terminar de redigir este post. Ela está simplesmente errada. Em parte, isso é normal, porque mesmo um texto publicado pode nos surpreender com passagens em que notamos que cometemos erros crassos. Textos são infinitos, afinal. Mas eu sinto que ainda preciso levar mais a sério a ideia de que cada nota é parte integrante do texto de uma publicação potencial.

Então, em suma, vou caprichar mais na atomicidade, ainda que eu esteja determinada a continuar interpretando-a no nível argumentativo, e vou prestar mais atenção à exigência de que o texto de cada nota seja publicável como está, sem precisar ser ainda polido. Mas eu aprendi que o sistema funciona e tudo valeu a pena.

Professora de filosofia