Citação direta: a melhor amiga de quem escreve mal

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Eu tenho testado vários métodos, sistemas, técnicas e ferramentas para aprimorar o meu trabalho com o conhecimento. Quem acompanha o conteúdo que eu produzo sobre o assunto, seja aqui ou no Youtube, sabe que, ao longo do tempo, eu já voltei atrás em recomendações que fiz. (Por exemplo, antes de descobrir os backlinks, eu recomendava a organização de notas por meio de tags, que ainda uso, mas, hoje, de forma secundária). Da mesma maneira, conforme a experiência e novos estudos me ensinam, eu vou mudando meu próprio modus operandi. Mas eu percebo que um pilar disso tudo tem estado bem fixo para mim desde os tempos de escola: escrever é a atividade fundamental. Ler, grifar, sublinhar, rabiscar o livro… tudo isso é mera distração se você não tiver a sua própria produção escrita. A leitura fornece apenas o contexto e o gatilho para a escrita, que é o pensamento levado a sério, o pensamento que se transforma de simples divagação em conhecimento. Assim sendo, se o conhecimento faz parte das nossas identidades, se não somos aqueles que estudam só para passarem em um exame ou concurso, temos todas as razões para evitarmos os subterfúgios da escrita. Por isso, este post é sobre um dos mais comuns deles: a citação direta.

Há três casos típicos de uso da citação direta como subterfúgio para evitar a escrita. Esses três casos representam graus distintos de atrofia da capacidade de escrever. No primeiro grau, o mais grave, a pessoa cita de forma completamente aleatória. A ideia é apenas diminuir o número de palavras que ela mesma precisa produzir. Assim, você lê aquelas poucas palavras do autor que precedem uma longa citação e fica sem entender o que uma coisa poderia ter a ver com a outra. Da mesma forma que o autor escolheu aquele trecho para ser citado, ele poderia ter escolhido absolutamente qualquer outro. Tudo que ele quer, afinal, é uma mãozinha com a contagem de palavras do texto.

Normalmente, quem escreve assim, desnecessário dizer, não tem sequer uma compreensão vaga do assunto sobre o qual escreve. Por isso, esse subterfúgio é comum em estudantes. O assunto é imposto pelo professor e o estudante tenta desesperadamente cumprir a tarefa, também imposta pelo professor, de entregar um texto com certa extensão para avaliação. O meu conselho para um estudante que se percebe nessa posição é que ele deve considerar o sentido de fazer algo assim. Por vezes, não entregar coisa alguma para avaliação é a atitude mais sensata — e até mais digna — a se adotar.

O segundo grau do uso da citação direta como subterfúgio é um pouco menos grave do que o primeiro, porque as citações não são aleatoriamente salpicadas por todo o texto, apesar da quantidade delas não diferir muito. Esse autor — normalmente, também um estudante — também não entendeu o texto citado, a despeito de qualquer fluência que ele possa ter sentido durante a leitura. Assim, ele não se sente seguro para fazer mais do que duas ou três afirmações sobre o texto. A tática, aqui, é muito simples. O autor apenas começa uma sentença, mas quem a termina, quem fica com o trabalho duro da explicação mesmo é o autor citado. Quer dizer, tudo que realmente importa é dito pelo autor citado, não pelo autor do texto que estamos lendo.

Diferentemente da primeira tática, esta segunda tática é também usada por alguns profissionais. Na verdade, ela é comum a ponto de poder aparecer até em textos de bons profissionais, quando eles ainda são inexperientes. Afinal, por vezes, um vício é tão comum, circula com tamanha naturalidade, que você acaba achando que é assim mesmo que se deve escrever. O vício vira a regra que você internaliza sem sequer perceber. É o tipo de vício do qual você se livra só quando começa a refletir mais ativamente sobre a sua prática, coisa que pouco fazemos. E se a cultura acadêmica não incentiva a produção verdadeiramente autoral, a autonomia, o pensamento próprio, então, esses vícios abundam mesmo.

O terceiro grau do uso da citação direta como subterfúgio é mais uma forma de expressão dessa cultura da mera reprodução do pensamento alheio, na qual, infelizmente, somos educados em muitas universidades brasileiras. Neste caso, você até escreve várias linhas de sua própria autoria, mas elas servem só para costurar as ideias de outros autores em uma colcha de retalhos. De novo, tudo que tem de fato valor está nas citações que você não se aventura a explicar com suas próprias palavras. O seu próprio texto se encarrega apenas das passagens de transição entre uma e outra ideia de outra pessoa. Inclusive, como é difícil costurar assim ideias de diferentes autores, acaba sendo comum que longas partes de um mesmo texto costurem ideias apresentadas em um único texto. Assim, vemos teses, por exemplo, que possuem capítulos diferentes dedicados a autores diferentes, só para facilitar o trabalho de costureiro do doutorando.

É fácil identificar visualmente o terceiro caso, sem sequer ler o texto. Se você possui o arquivo digital do texto, abra-o em um software que permita a visualização de todas as páginas simultaneamente como thumbnails. O que você verá é que, em cada página, ao menos um longo bloco de citação direta se destacará do restante do texto. O mais comum é cada página ser formada por dois pequenos trechos autorais intercalados com dois blocos de citação direta. Se você escolher aleatoriamente uma dessas páginas para ler, advinha em quais desses quatro blocos de texto que compõem a página você encontrará as ideias realmente importantes? Pois é.

Mas, agora, isso quer dizer que você não deve fazer uso da citação direta? Longe disso. Você pode usar uma citação direta, mesmo que ela seja longa, pelo efeito estilístico, quando suas palavras não seriam tão fortes e não causariam a mesma impressão no leitor. Além disso, também é possível que certa passagem que você encontrou na literatura sintetize com perfeição os argumentos que você acaba de desenvolver em detalhes. A passagem se torna um ótimo desfecho para a sua argumentação naquele ponto do texto. Mas tome cuidado para não concluir uma seção ou, pior, o próprio texto com uma citação. A última palavra, via de regra, precisa ser sua. É o seu texto!

Acima de tudo, não abuse da licença para fazer esse tipo de citação. Se seu texto está repleto de citações diretas e sua justificativa é que os outros autores sintetizam ideias melhor do que você e sabem escolher melhor as palavras, então, apenas recomende os textos deles para os outros lerem e mude de ofício.

Por fim, há um uso natural de citações diretas, por vezes, bastante longas nos textos com objetivos hermenêuticos. Quando o texto é essencialmente interpretativo, você faz citações diretas para expor o objeto de uma dada polêmica exegética da qual você pretende tomar parte, bem como para buscar abono textual para sua hipótese interpretativa. Portanto, é óbvio que esses são os textos que podem fazer uso mais frequente da citação direta. Mas, por favor, tome cuidado para não usar isso como desculpa para, na verdade, terceirizar a escrita do “seu” texto.

Professora de filosofia