A Maldição da Filosofia Acadêmica

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Você pode encontrar umas 353 mil entrevistas de Yuval Noah Harari na internet. Eu sou culpada de ter ouvido algumas delas, a última, no podcast de Tim Ferris. Embora eu ainda não esteja certa se gosto ou não de Harari, — tem algo na voz dele que me irrita, talvez, uma choramingação, não acham? — na entrevista para Ferris, ele disse algo que me chamou bastante a atenção, sobre a diferença entre escrever a história do mundo e escrever a história de uma certa batalha na Idade Média.

Segundo Harari, ele só pode escrever a história do mundo por não ser um perfeccionista. Significa que nem tudo que ele escreve precisa estar demonstrado para além de toda dúvida razoável, isso porque ele não tem qualquer problema em ser corrigido posteriormente à publicação. Em outras palavras, ele aceita correr riscos. O risco de errar e ser corrigido publicamente é o preço a ser pago por quem procura a inteligibilidade na big picture, digamos assim, em vez de se concentrar nos menores detalhes dos objetos de sua área.

Essa fala de Harari tem muita ressonância comigo, porque, como todo acadêmico, há tempos eu sinto na pele a necessidade de pesquisar o detalhe no detalhe, chegando ao extremo da especialização, para poder superar o obstáculo dos pareceristas e ver meu trabalho publicado em revistas que contam pontos para a minha produção. Para quem não é do ramo, funciona assim. Você escreve um texto sabendo que ele será lido por outro especialista da área, que procurará cuidadosamente um defeito qualquer em seu argumento, defeito este que inviabilize a publicação na revista na qual você precisa publicar, para que a publicação conte pontos para você.

O trabalho desse parecerista é, basicamente, verificar se você leu tudo que outros especialistas relevantes publicaram sobre o mesmo pontinho do seu artigo, se você formulou precisamente uma questão que faça sentido para essa comunidade de especialistas, se tem um objetivo claro com respeito a essa questão e, por fim, se os argumentos construídos no artigo realmente sustentam esse objetivo ao final do trabalho. Isso significa que, quanto mais você ampliar o objeto de estudo, mais difícil será a sua tarefa, porque maior será a literatura com a qual você terá que lidar; quanto mais você tentar inovar com respeito ao que uma dada comunidade já vem fazendo, maior precisará ser a sua capacidade de persuadir ao menos dois membros dessa comunidade (normalmente, são dois pareceristas) de que essa inovação deva ser aceita. Obviamente, isso cria o incentivo da especialização e da normalidade, aquele incentivo para você estudar aquela batalha pontual da Idade Média, escrevendo como todo mundo escreve sobre ela, em vez de escrever a história do mundo com um estilo próprio. Qualquer desvio de conduta metodológica ou ampliação no horizonte de pesquisa impacta diretamente o risco de rejeição, colocando sob ameaça a sua carreira.

Agora, quando eu me queixo desse cenário, dizem que isso é a “ciência normal”, na terminologia de Thomas Kuhn, em oposição à prática científica nos momentos de crise, que é quando o paradigma da comunidade de especialistas está em xeque e os cientistas viram filósofos, reexaminando a própria natureza de sua atividade. Ok. Eu entendo que a ciência normal seja salutar para a… ciência. Se os cientistas nunca tivessem manuais e sempre refletissem sobre seu campo de trabalho como um todo, a ciência teria avançado muito pouco ao longo da história. E eu — ingenuamente, se quiser — acredito em avanço científico. Mas será que esse modelo acadêmico da ciência normal ultraespecializada serve para a filosofia? A filosofia não seria um pensamento em crise por excelência?

Bom, eu gostaria que alguém me apontasse um grande filósofo, daqueles que, indiscutivelmente, fazem parte do cânone da filosofia, que tenha sido um especialista em algum probleminha bem particular. Os grandes filósofos, grandes mesmo, foram filósofos de sistema, à maneira de Kant ou Hegel, ou então, ao menos, dedicaram-se a várias áreas da filosofia, como Aristóteles ou Hume. Normalmente, a grandeza desses filósofos está diretamente relacionada com o caráter abrangente de suas obras. Mesmo quando grandes filósofos ficaram conhecidos por sua contribuição marcante em apenas uma área da filosofia — como eu diria ser o caso de Hobbes, o maior nome da filosofia política — esses filósofos voltaram-se às grandes questões, como a natureza e a justificação do Estado, e não a pequenos problemas dentro de outros problemas que fazem parte de ainda outros problemas, para que eles pudessem fazer o menor recorte possível na literatura, sem deixar qualquer ponta solta para um parecerista puxar.

E isso é para não falarmos de estilo. Será que a filosofia acadêmica atual teria algum espaço para um Platão ou um Montaigne? Você tem que fazer do jeito que uma comunidade de experts já faz, você tem que seguir as regras do jogo, tem que parecer o mais científico possível, de preferência, usando a linguagem técnica mais hermética possível, a linguagem que só aquela comunidade entenderá. Isso faz bem para a filosofia? Tem algo a ver com a história da atividade filosófica?

Mas não me entenda mal. Veja, por vezes, lemos nos muros das universidades frases como: “as flores da filosofia não florescem dentro dos muros da universidade”. Eu li mesmo algo assim em Maringá. Não sei se já pintaram por cima da pixação. Pois eu não me alinho com esse pensamento anti-acadêmico, afinal, Kant foi professor universitário e, desde então, eu não saberia citar um grande filósofo que não tenha colocado os pés na universidade. Nossa época ainda não nos ofereceu nenhum, e eu não acho que isso seja coincidência.

Fora da universidade, temos toda sorte de teoria da conspiração angariando malucos pela internet. É o extremo oposto. É o vale tudo. Quanto mais radical, no mau sentido, for o seu pensamento, maiores as chances de você se destacar no oceano de canais do Youtube. O incentivo fora da universidade é para a pura e simples insanidade. Razoabilidade e rigor não ganham likes, desagradar seus seguidores, muito menos.

Então, o que resta para a pobre filosofia? Eu diria que precisamos firmar o pé, dentro da universidade, contra a imposição dos padrões da ciência normal, mesmo que isso nos custe programas de pós-graduação e bolsas de pesquisa. Nós temos coragem para isso?

Eu não uso a primeira pessoa do plural retoricamente. Eu me incluo no problema e não sei se tenho coragem de enfrentar o sistema que destrói a filosofia nos obrigando à publicação de cada vez mais artigos que são cada vez menos relevantes, sobretudo, artigos que nada dizem para o não especialista, mesmo quando, pasmem, ele é até mesmo um outro profissional da filosofia!

E o que acho até mais intrigante é que vivemos uma época que faz grandes demandas por inteligibilidade, ou seja, por respostas filosóficas para grandes questões. Não é como se não houvesse público interessado em grandes questões, na verdade, na maior de todas as questões: “como se deve viver?” É que deixamos esse espaço ser ocupado por picaretas, enquanto entramos em uma corrida por publicações irrelevantes para conseguirmos financiamento para nossas pesquisas dentro da universalidade. Porque, no fim, é isso, não é? Nós nos tornamos carreiristas que não refletem mais sobre a vida. Somos como o CEO daquela grande companhia que só pensa na produtividade que o mantém no cargo. As grandes questões da filosofia, nós tratamos com desdém, como questões para aqueles livros de auto-ajuda nas bancas de sala de embarque de aeroportos.

Ou, talvez, a gente reflita. Então, ficamos deprimidos e/ou ansiosos, e continuamos fazendo o que fomos treinados a fazer, o que nossa comunidade faz. Não conseguimos romper o ciclo, talvez, porque não seja uma questão de atitude individual. A coisa é kafkaniana, ao que parece. Continuamos querendo parecer cientistas para termos o respeito dos cientistas e do público em geral, mas nenhuma técnica útil para o grande público advém da nossa especialização. O objetivo da nossa publicação é só… pontuar perante as agência de fomento. Eu acho que eu pontuo mais do que a média, só que eu descobri que esse joguinho só tem perdedores. E continuo jogando… o que mais eu posso fazer?

Professora de filosofia